ELEIÇÕES FRANCESAS – “SINTO-ME MAIS À ESQUERDA QUE MANUEL VALLS!”, ALAIN
DE BENOIST a LE POINT – por LAURÉLINE DUPONT
«Sinto-me mais à esquerda que Manuel Valls !»
Alain de Benoist a LE POINT
Lauréline Dupont, Alain de Benoist : “Je me sens plus à gauche que
Manuel Valls !”
Le Point.fr, 9 de Março de 2015
A controvérsia entre Onfray e Valls sobe de tom. Em jogo, o intelectual
etiquetado (muito) à direita Alain de Benoist. Pedimos-lhe que nos dissesse o
que pensava sobre o assunto. Lauréline Dupont para Le Point.
Le Point: Este fim de semana, Manuel Valls declarou: “Quando um filósofo
conhecido, apreciado por muitos Franceses, Michel Onfray, explica que Alain de
Benoist – que era o filósofo da Nova Direita nos anos 70 e 80, que de uma certa
maneira deu forma à matriz à ideológica da Frente Nacional, com o Clube do
relógio, Le Grece – […] vale bem mais que Bernard-Henri Lévy, isto quer dizer
que se estão a perder as referências .” Manifestamente, o Primeiro ministro
prefere BHL relativamente a si . Como reage a estas suas declarações?
Alain de Benoist: Com uma certa surpresa, porque é uma intenção
completamente inesperada. A pergunta que me coloco é a seguinte: porque é que o
Primeiro- ministro, que está em plena campanha eleitoral, pensa ser necessário,
na sua campanha eleitoral, referir-se a Michel Onfray? É um pouco surrealista.
Tenho a impressão que Michel Onfray, de que Manuel Valls tenta fazer passar a
ideia de que está a inclinar para a “direita” – o que na minha opinião é
completamente falso -, é o símbolo de uma esquerda que permanece fiel aos seus
compromissos de esquerda. Onfray é um pouco a estátua do comendador que não
esconde o desprezo que tem pela esquerda social, liberal, reformista, encarnada
por Manuel Valls. Onfray que está mais próximo no passado da Frente de
esquerda, e por conseguinte, atacando-o, Manuel Valls tenta desembaraçar-se de
alguém que o que o incomoda fortemente porque lhe atribui uma má consciência.
Em segundo lugar, Manuel Valls acusa-o de preferir Alain de Benoist a
BHL, mas sublinho que Michel Onfray nunca disse isso. Disse que preferia uma
ideia justa, correcta, proferida por Alain de Benoist do que uma ideia falsa
emitida por BHL, o que me não parece ser uma declaração de espantar, uma ideia
revolucionária sequer, mas, aparentemente, tudo isto levanta problemas a Manuel
Valls.
Em terceiro lugar, ver Manuel Valls fazer-me esta publicidade um pouco
involuntária é surpreendente, porque não duvido que ele não conheça nenhuma
linha do que eu possa ter escrito ao longo da minha vida. Ele recopia as fichas
que lhe transmitiram . Nunca fiz parte do Clube do relógio, atribuiu-me a
paternidade da matriz ideológica da FN, o que deve ter feito rir e a bom rir as
gentes da Frente Nacional . Resumidamente, Valls fala do que não sabe. Tenho a
impressão que tem os pés completamente cheios de chumbo. É um homem ambicioso e
nervoso que faz trejeitos com o queixo à boa maneira de Mussolini , mas esta
espécie de mau humor contínuo esconde, sobretudo, uma certa desordem, uma
incerteza não menos constante. Faz parte de uma classe dirigente que constata
que tudo está crise, que tudo está a desmoronar-se e que tem o sentimento que o
chão lhe foge debaixo dos seus pés. As suas declarações apocalípticas segundo
as quais Marine Le Pen pode chegar ao poder em 2017 – o que não acredito – são
feitas para aterrorizar a opinião, está-se numa espécie de clima “de
aterrorização permanente ”, se é que se pode empregar esta expressão.
Não será um pouco esquizofrénico por parte de Valls explicar por um lado
que a França vai despedaçar-se contra a FN e por outro lado estar a
estigmatizar aqueles que, à esquerda, seriam culpados de se combinarem com uma
direita que ele julga demasiado à direita? Apontar a dedo Onfray significa
afirmar que a esquerda é incapaz de evoluir, que esta é incapaz de se
questionar a si-mesma, qualquer que seja a ameaça.
Vou fazer-vos uma confidência, sinto-me muito mais à esquerda que Manuel
Valls! Aparentemente, o Primeiro-ministro dirige-se a pessoas que acreditam que
a segmentação esquerda-direita mantém uma certa validade, enquanto que esta
clivagem me parece estar hoje completamente obsoleta, eu creio que esta foi
substituída por uma segmentação entre os partidários e os adversários da
globalização, entre os que ganham com ela e os que sofrem as suas
consequências.
No último número de Éléments, o senhor apela a que Michel Onfray se
junte a si …
Mas não a juntar-se a nós ! Onfray tem uma preocupação aguda da sua
independência, e eu não gostaria de a beliscar. Penso que todas as pessoas que se
sentem um pouco mal nesta sociedade dominada pelas relações de classe e pela
lógica do dinheiro têm algum interesse a reencontrarem-se e a discutir um pouco
à volta de tudo isto.
Entre ele e o senhor, qual do dois evoluiu?
Toda a gente evolui e sobretudo a situação evolui. Não digo o que dizia
há 25 anos, e acontece a mesma coisa com Michel Onfray.
Do seu ponto de vista, a segmentação direita-esquerda é obsoleta, o
senhor participaria hoje numa uma aventura que se chamaria a Nova Direita?
A Nova Direita nunca foi uma auto-designação, são os meios de
comunicação social que, em 1979, disseram: “Ah, extraordinário, há uma nova
direita”. Na época não me senti nenhum prazer especial nesta expressão, ao
mesmo tempo porque tinha um carácter muito político, enquanto que eu não sou um
actor da vida política, e também porque essa expressão nos encerrava numa
denominação muito redutora. No decorrer da minha vida, dirigi críticas
incessantes a muitas pessoas de direita, por conseguinte nunca gostei muito
desta etiqueta. Mas quando uma etiqueta como aquela foi lançada, é-se obrigado
a assumi-la. Voltar a partir para uma nova aventura, sim, mas não o faria
certamente sob esta etiqueta, hoje.
