Eugene Montsalvat - A Direita Alternativa: Uma Autópsia
por Eugene Montsalvat
Quando o amplo movimento agora chamado "direita alternativa" pareceu surgiu por volta de 2010, as esperanças eram bem elevadas. O então editor do Occidental Quarterly afirmou que ele esperava que isso introduziria jovens conservadores a coisas como a Nova Direita europeia, a Terceira Posição, a Revolução Conservadora, o Tradicionalismo, e o anticapitalismo de direita. O objetivo de ampliar suas mentes e afastar conservadores americanos das picuinhas partidárias usuais na direção de questões mais radicais e importantes não foi atingido. Ao invés, ela levou a uma solidificação dos piores elementos do conservadorismo americano, agora repaginado como algo vanguardista. Ao invés de se tornar ponta-de-lança para o pensamento de figuras conservadoras revolucionárias ou novo-direitistas como Oswald Spengler, Alain de Benoist ou Aleksandr Dugin entrar no discurso político americano, ela se tornou um foco de atração para aqueles que querem defender o capitalismo contra populações de QI baixo, todas as suas teorias estando embasadas na terminologia mais imatura retirada dos esgotos da internet. Ao invés de levar a um novo movimento revolucionário nos EUA, simplesmente recuperou algumas das ideias conservadoras americanas mais retrógradas do passado com uma estética mais "vanguarda" projetada para atrair os elementos mais juvenis da sociedade. A direita alternativa falhou em articular as críticas necessárias à ordem atual, deixando o campo da ideologia populista nacional vazio de uma alternativa real e desesperadamente necessária. A direita alternativa em seu estado atual não tem futuro. Ela deve ser reformada com o poder de olhar para além das barreiras artificiais de esquerda e direita, barreiras definidas pela elite hostil da política americana.
Talvez o traço mais unificador das várias correntes na direita alternativa americana é seu foco nas definições biológicas de raça. Certamente, a compreensão científica das diferenças humanas possui seu lugar. Porém, uma definição meramente materialista é na melhor das hipóteses insuficiente, na pior delas contraprodutiva. No melhor caso, é um passo no longo processo de tirar uma pessoa do paradigma do igualitarismo liberal na direção de uma concepção filosófica das diferenças humanas. Nesse sentido, uma compreensão biológica da desigualdade humana deve ser vista como uma fase transitória. Sim, humanos são realmente diferentes biologicamente, porém essa concepção biológica da diferença é apenas uma compreensão superficial das diferenças humanas essenciais. Para uma compreensão mais profunda da desigualdade humana, devemos avançar para além do materialismo biológico, que replica uma compreensão racionalista e iluminista do mundo, e adentrar na doutrina Tradicionalista sobre raça, como compreendida por Julius Evola. Há um aspecto biológico, realmente, porém nós devemos também transcender na direção de um entendimento da "raça da alma" e uma "raça do espírito".
Com "raça da alma", nós podemos falar sobre as várias características espirituais que definem um certo povo. Assim, se alguém segue uma moralidade judaica, essa pessoa pode ser membro da "raça judaica da alma" ao mesmo tempo sendo inteiramente gentia em sentido biológico. Quanto à "raça do espírito", ela define como diferentes pessoas em uma sociedade se relacionam com o divino. Nas civilizações antigas, diferentes sexos e classes sociais adoravam diferentes deuses. Os patrícios romanos representam uma "raça do espírito" diferente dos plebeus romanos, e os brâmanes hindus representam uma "raça do espírito" diferente dos ksatriyas. As mulheres representam uma "raça do espírito" diferente dos homens. Certamente, nessa concepção tripartite de raça, os três aspectos de biologia, alma e espírito estão entrelaçados. Porém, isso não pode ser simplesmente reduzido à biologia da qual todas as coisas fluem. Essa obsessão com distinções científicas entre raças e a necessidade de mensurar cada diferença biológica (e eu realmente me refiro a cada diferença) está muito longe de um entendimento profundo, filosófico, das distintas essências espirituais dos povos que caracterizavam as raízes antigas de nossa civilização. Ademais, isso é patentemente pouco inspirador, já que homem algum vai atacar uma metralhadora para defender um estudo sobre QI. Os homens morrem por visões superiores e transcendentes do ser. É melhor falar sobre o espírito da nação do que entediar pessoas comuns até as lágrimas com tabelas demonstrando diferentes medições cranianas.
Na pior das hipóteses, a concepção biológica de raça leva a uma reiteração de preconceitos iluministas liberais. Ela assume, tal como os neo-ateístas representados por tipos como Richard Dawkins fazem, que todas as questões podem ser reduzidas a meras explicações racionais, científicas. Isso pode levar ao que é geralmente chamado de "elitismo cognitivo". Ela assume que o QI é o árbitro final de valor humano. Isso é absolutamente desastroso para qualquer ideologia política que busque afirmar a identidade livre e única de povos. Se um certo povo possui um QI maior, por que deveríamos ver como imoral se ele conquistar os menos inteligentes? Se este é o caso, então Hong Kong deveria governar o mundo, e nenhuma outra nação deveria se impôr. Ao invés de afirmar diferenças, o elitismo cognitivo afirma a dominação de um povo em detrimento de outros. Ao invés de afirmar o direito de todos os povos de cultivarem sua identidade étnica e cultura tal como a ideologia etnopluralista defendida pela Nova Direita europeia faz, ela involui em um tipo de triunfalismo branco onde o fato de que brancos possuem um QI maior que alguns outros povos significa que eles são superiores, e estão assim justificados em destruir outras culturas. Isso é essencialmente similar ao darwinismo social vitoriano que foi usado para justificar o domínio do Império Britânico. Enquanto alguns possam olhar para essa era como o ponto alto da civilização europeia, ele deve ser visto pelo que é: um período de exploração, tanto dos povos colonizados, como dos trabalhadores pobres das próprias nações coloniais, que lideraram o caminho para a globalização da sociedade e para a emergência do capitalismo internacional como o paradigma econômico dominante, questões que continuam a nos afetar hoje. Este tipo de raciocínio vitoriano ainda encontra ressonância nas visões econômicas da direita alternativa americana.
Entre as grandes falhas da direita alternativa americana tem sido sua incapacidade de criticar o sistema capitalista. Ele é visto como um sistema justo, suas falhas e erros ou são ignorados ou a culpa é colocada em algum outro grupo racial. Eles citarão, de modo darwiniano, que pessoas com QI mais alto ganham mais, e que nações com QI médio alto são mais ricas, então os ricos merecem tudo o que tem, e qualqeur tentativa de redistribuir riqueza é "disgênica", ainda que a vasta maioria das pessoas patrióticas, trabalhadoras e medianas se beneficiasse com um retorno, mesmo que parcial, ao Estado de Bem-Estar da América de Eisenhower, um período para o qual eles ironicamente olham com nostalgia por causa de seus valores sociais sadios. Ainda assim, o período de dominação branca europeia pelo capitalismo é visto como uma marca de orgulho europeu e o zênite da civilização europeia. Eles consideram o sofrimento da vasta maioria dos brancos sob o capitalismo antes da emergência do Estado de Bem-Estar no século XX, como narrado por autores clássicos como Charles Dickens, Jack London, Upton Sinclair ou Louis-Ferdinand Céline, como ou merecido ou irrelevante, se é que eles dão alguma consideração.
Ademais, essa combinação de fetichismo com QI e ideologia de mercado leva a uma defesa contraditória e confusa das fronteiras nacionais. Direitistas alternativos americanos reconhecem que comunidades imigrantes de países com baixo QI médio tendem a votar em favor do Estado de Bem-Estar; portanto, nós devemos controlar nossas fronteiras para salvar o capitalismo. Essa análise é ruim em vários níveis. Primeiro e mais importante, são os capitalistas americanos que trazem os imigrantes, legalmente ou ilegalmente, para cortar os salários de trabalhadores nascidos nos EUA. A mais forte oposição a propostas de fechar a fronteira ou limitar a imigração vem da própria classe capitalista americana. A liderança de companhias famosas como eBay, Google, PayPayl e Yahoo liderou esforços para convencer o Congresso a aprovar leis ampliando a imigração. A direita alternativa não consegue compreender que a oposição à interferência no fluxo de trabalho e capital entre países tem sido uma faceta fundamental do capitalismo desde a época de Adam Smith e Bastiat, que se opunham ao protecionismo mercantilista. Como o importante pensador da Nova Direita europeia, Alain de Benoist, afirmou em seu clássico ensaio, "Imigração: O Exército de Reserva do Capital": "Quem criticar o capitalismo, ao mesmo tempo que aprova a imigração, sendo o proletariado sua primeira vítima, é melhor silenciar. Quem criticar a imigração, ao mesmo tempo que silencia sobre o capitalismo, deve fazer o mesmo". Capitalismo e imigração em massa são dois lados da mesma moeda. Eles não conseguem entender que o capitalismo não aceita fronteiras, seja fisicamente ou mentalmente, no que concerne a busca pelo lucro. Se o Estado-Nação, a família tradicional, ou a religião ficarem no caminho, eles devem ser descartados. Citando Alain de Benoist novamente, em "Essa Direita que não se importa com seu povo":
"Eles ainda não entendem que o capitalismo é intrinsecamente globalista, porque ele demanda a abolição de fronteiras ('laissez faire, laisser passer!'). Por razão de sua propensão à ilimitação, ele não pode existir sem revolucionar constantemente as relações nacionais, ou sem ver as identidades nacionais como estando entre tantos outros obstáculos para a expansão do mercado globalizado. O modelo antropológico que ele leva, que é o de um indivíduo que está sempre buscando a maximização de seu próprio interesse, está tanto em funcionamento no liberalismo econômico como no liberalismo social, e os axiomas do interesse e o maquinário do lucro são pilares da ditadura dos valores mercantis".
Foi sob o capitalismo, não sob o socialismo, que o feminismo, o multiculturalismo, a teoria de gênero, e a liberação sexual encontraram suas mais poderosas expressões. Porém, ao invés de reconhecer este fato, a direita alternativa recorre à teoria do "marxismo cultural".
"Marxismo cultural" pode significar muitas coisas. Em uma interpretação extrema, é uma perspectiva altamente conspiratória que propõe que os soviéticos infiltraram vários órgãos governamentais, acadêmicos e empresariais nos EUA com o objetivo de enfraquecer os valores morais da sociedade para torná-la mais adequada para uma revolução comunista guiada pelos soviéticos. Em outra, ela pode significar a influência dos pensadores da Escola de Frankfurt na sociedade. Nós podemos rapidamente descartar a primeira, considerando que coisas como homossexualidade eram punidas severamente na URSS, e que, após uma fase inicial de liberação sexual, Stálin reprimiu essa lassidão moral, limitando o divórcio e o aborto. No Bloco Oriental, o "movimento hippie", onde existisse, era visto com suspeitas e sujeito a repressão por suas raízes americanas. As origens dessa teoria da conspiração tendem a voltar ao testemunho do dissidente soviético Yuri Bezmenov, que se tornou uma figura popular em círculos anticomunistas americanos, onde ele frequentemente coletava taxas para repetir em palestras o que as pessoas já acreditavam. Curiosamente, a direita alternativa toma as afirmações de um imigrante preenchendo um nicho no mercado americano a sério. Em contraste, não foi a KGB, mas a CIA que apoiou a arte moderna como um desafio ao "realismo socialista" de inspiração clássica na URSS, e contratou a radical Gloria Steinem como agente para este fim. De fato, a CIA recebeu muitos comunistas anti-stalinistas em seu "Congresso para a Liberdade Cultural", que foi estabelecido em 1950 para atrair esquerdistas para uma posição anti-soviética. Ademais, nós devemos notar que muitas figuras da Escola de Frankfurt culpadas pelo "marxismo cultural" em versões menos conspiratórias encontraram um refúgio do nazismo não na URSS, mas nos EUA.
A Escola de Frankfurt é considerada como uma das principais bases para o desenvolvimento da ideologia freudo-marxista, particularmente por seu notável membro, Herbert Marcuse. Outro é o pensador judeu-alemão Wilhelm Reich, que também encontrou refúgio nos EUA após perseguição nazista. No livro de Marcuse Eros e Civilização, a liberação sexual está misturada com ideias sobre libertação da alienação econômica também. Porém, Marcuse modifica a base fundamental do marxismo. A história não é mais explicada pela luta de classes, mas como uma luta contra a repressão, com o capitalismo moderno sendo o tipo mais repressivo de sociedade. Esse desvio da teoria marxista clássica mostra o motivo pelo qual a Escola de Frankfurt não foi bem recebida na URSS. Ao invés de demandarem um socialismo no qual os desejos individuais estivessem sujeitos aos objetivos de um planejamento central pelo benefício da nação, ele defende uma plena liberalização dos desejos humanos. Essa crítica provou ser popular nos campi universitários americanos e influenciou os radicais da década de 60, que defendiam uma revolução através do "rock n' roll, drogas e sexo nas ruas", em uma frase notável de John Sinclair. Porém, a ideologia da gratificação sensorial total foi completamente assimilada pelo capitalismo. Depravação na música, nos filmes e na televisão alimentou os cofres das grandes corporações midiáticas, sem mencionar a ascensão simultânea da indústria pornográfica. Na verdade, essa ideologia se encaixa perfeitamente com o capitalismo: o cliente sempre tem razão, e os desejos hedonistas se tornam ainda mais escolhas de consumo para serem satisfeitas pelo mercado. Certamente, a ideologia da gratificação sensorial ilimitada criou novos campos vastos de exploração para o capitalismo.
Ademais, essa ideologia radical da nova esquerda demonstrou um efeito maligno sobre a centro-esquerda hegemônica, que, apesar de não ser marxista, trabalhava no domínio clássico da política classista, lutando por um Estado de Bem-Estar maior e pelos direitos do proletariado (deve-se notar a imensa ironia de alguns elementos da direita alternativa olharem com saudades para os "bons e velhos dias" da América pré-1968, quando o Estado de Bem-Estaro e o poder sindical estavam em seu ápice). Abandonando preocupações caras aos corações do trabalhador médio, a esquerda hegemônica gradualmente adotou ideologias como o feminismo, o pró-imigracionismo e a libertação homossexual. Enquanto a classe trabalhadora padece com dificuldades cada vez maiores, e valores tradicionais são apagados, o capitalismo é mais forte do que nunca. Porém, a direita alternativa permanece proximamente ligada ao capitalismo, apesar de críticas a várias facetas do capitalismo, tal como a usura, desde uma perspectiva europeia tradicional vindo desde Aristóteles e dos antigos gregos, dos Pais da Igreja, e Tomás de Aquino. De fato, a história do anticapitalismo conservador é muito mais longa e profunda, mesmo nos EUA quando olhamos para figuras como Ezra Pound e Padre Coughlin, do que a história da defesa conservadora do capitalismo. Essa contradição aparente passa desapercebida pela direita alternativa.
Essa falta de vontade de transitar além da perspectiva capitalista americana trouxe algumas consequências geopolíticas para a direita alternativa. Ainda que ela ocasionalmente demonstre uma postura menos belicista que o conservadorismo americano hegemônico, normalmente tendendo a um não-intervencionismo paleoconservador, ela ainda expressa uma certa paranoia da Guerra Fria em relação ao socialismo. Em uma nota positiva, a atitude tóxica em relação a Rússia foi razoavelmente moderada, ainda que por razões do aparente masculinismo de Putin mais do que por uma consideração séria de sua política externa. E ainda assim, essa russofobia não desapareceu. Há muitos no milieu que foram enganados pela propaganda do banderismo em se alinharem com a UE e a OTAN contra a Nova Rússia. Ademais, a atitude da direita alternativa em relação ao socialismo na América do Sul ainda é uma de hostilidade e neocolonialismo. Figuras como Hugo Chávez e Juan Perón são demonizadas, e a ideologia do socialismo, ao invés do capitalismo neocolonial americano, é culpada pelos sofrimentos da América Latina. Eles exaltam aquele lacaio da CIA, Augusto Pinochet, enquanto fantasiam sobre arremessar "comunistas" de helicópteros para salvar o capitalismo. É grosseiramente hipócrita para um movimento que afirma ser nacionalista elogiar um homem que derrubou o governo de seu próprio país com apoio estrangeiro e que então entregou bens públicos para corporações multinacionais sem qualquer lealdade para com qualquer nação.
Ademais, enquanto rejeitam as tentativas mas egrégias de neocolonialismo neoconservador no Oriente Médio, eles em sua maioria subscrevem às teses oferecidas por Samuel Huntington em O Choque de Civilizações, que reduz os problemas no Oriente Médio a um choque de civilizações entre Europa e Islã. Isso ignora completamente os papeis que o colonialismo europeu, e o neocolonialismo sionista e americano posterior, desempenharam em desestabilizar a região. A maioria dos muçulmanos não estão imigrando para a Europa em prol da jihad, mas porque eles foram desenraizados pelo capitalismo, pelo colonialismo e por guerras importadas do Ocidente, e são recebidos como uma fonte de mão-de-obra pelos capitalistas ocidentais. Isso, por sua vez, leva a direita alternativa a abraçar figuras como Geert Wilders ou movimentos como a Liga de Defesa Inglesa, que atacam o Islã sem dizer uma única palavra sobre o sionismo ou o capitalismo. Eles saboreiam perversamente relatos extravagantes de estupros e assassinatos por imigrantes. Eles confundem os sintomas do problema, fundamentalmente a imigração, com suas causas raízes: a interferência americana e sionista no Oriente Médio. Alguns, ainda que certamente não todos, na direita alternativa tem chegado ao ponto de afirmar que Israel é um Estado nacionalista étnico modelo e um bastião da civilização ocidental contra o Islã. Porém, eles nem consideram por um momento o que a civilização ocidental significa hoje. Eles se aliariam a feministas, homossexuais, liberais e sionistas contra o Islã meramente porque o Islã condena esses traços que se permitiu enraizar no Ocidente. Nesse caso, eu recomendaria que eles consultassem o pensador italiano radical Giorgio Freda, que disse aos nacionalistas que quisessem defender a "civilização europeia":
"Temos falado em termos de 'civilização europeia', sem nem mesmo arranhar a superfície dessa expressão e sem verificá-la, indo às profundezas do problema: se existe, em realidade, uma civilização europeia homogênea, e quais são os coeficientes autênticos de seu significado à luz de uma situação histórica global na qual a guerrilha latino-americana adere muito mais proximamente a nossa visão de mundo do que o espanhol vassalo de padres e dos EUA; onde o povo guerreiro do Vietnã do Norte, com um estilo heróico, sóbrio, espartano está muito mais perto de nossa concepção da existência do que o trato digestivo italiano, ou o francês ou alemão do Ocidente; onde o terrorista palestino está muito mais perto de nossos sonhos de vingança do que o inglês judaizado (europeu? eu duvido)".
Dançando ao som dos slogans neoconservadores e sionistas de "defender valores ocidentais", a direita alternativa se alinhou com os elementos mais tóxicos dentro da civilização ocidental, os elementos emblemáticos da própria decadência cultural que eles atacam. É absurdo que a direita alternativa subitamente passe de atacar essas coisas para defendê-las quando são atacados por outra cultura. Ao invés de atacarem as raízes do problema, eles atacam apenas seus sintomas, e preparam o palco para mais caos no Oriente Médio e Europa.
É risível que a direita alternativa afirme ser a voz do populismo nacionalista. Ao contrário, quando a direita alternativa consegue ser mencionada pela mídia hegemônica, ela é usada como uma vara curta por liberais para atacar as preocupações legítimas de trabalhadores, que obviamente não tem nada a ver com isso, em relação a imigração associando-os com uma subcultura tão quixotesca quanto essa. As preocupações há muito ignoradas dos trabalhadores e patriotas merecem supostos porta-vozes melhores do que capitalistas adolescentes pueris que estão preocupados com que a imigração ameace seu neoliberalismo.
A direita alternativa não conseguiu desenvolver ideias novas e revolucionárias. No pior dos cenários, ela ameaça macular a causa do populismo nacionalista e se tornar um bicho-papão usado por liberais apenas para deslegitimar preocupações com imigração, identidade nacional e globalização. Nós devemos nos perguntar como podemos melhorar a qualidade do discurso. Em um nível bastante básico nos EUA, nós podemos ampliar o conhecimento sobre a verdadeira herança populista nacional, aquela que desafiou tanto o liberalismo social quanto o liberalismo econômico. Nós podemos nos referir aos velhos líderes sindicais que se opunham à imigração tal como Denis Kearney, e o autor socialista clássico americano Jack London. Nós podemos olhar para figuras da década de 30 como Ezra Pound e o Padre Charles Coughlin, que se opunham à usura. Ademais, nós podemos ampliar nossas mentes lendo a obra de figuras nacionalistas anticapitalistas ao longo da história do planeta, que podem ser encontradas entre movimentos como a Revolução Conservadora e a Nova Direita europeia. Também, nós podemos ousar até fazer análises nacionalistas de movimentos tipicamente considerados de esquerda, desenvolvendo sínteses ideológicas e buscando bases comuns, assim ampliando nosso apelo para esquerdistas que similarmente sentem o chamado da identidade nacional.
Finalmente, nós devemos começar a construir movimentos sérios e desenvolver think-tanks que produzam ideias sérias ao invés de memes. Precisamos começar a olhar para fora do sistema e dos confis do conservadorismo simplista americano e da regurgitação de ideias defuntas. Precisamos ver que a restauração da soberania nacional implica a restauração do controle econômico para o povo, não para corporações globais ou grandes empresários que podem voar para algum paraíso fiscal. Precisamos nos tornar autenticamente, intransigentemente revolucionários. Precisamos desenvolver a coragem de atravessar barreiras ideológicas impostas pela classe governante, encontrar a coragem de cruzar o abismo e a vontade de encarar ideias verdadeiramente radicais. Libertar a nação não é uma tarefa fácil. É uma tarefá que demandará imenso sacrifício, uma disciplina espartana, e um desprezo pela política convencional. Certamente, haverá os negadores que estarão contentes em pular na última campanha eleitoral na esperança de poderem resolver todos os nossos problemas com legislação. Haverá as massas de ideólogos perplexos enfeitiçados nas falsas dicotomias do sistema que reagirão com ira incoerente quando fronteiras ideológicas forem apagadas. Ainda assim, nossa grande tarefa está aí, e nós não vamos ser abalados.
segunda-feira, 30 de maio de 2016
domingo, 29 de maio de 2016
O Islã aos olhos de Julius Evola
por Claudio Mutti
I
A recepção auspiciosa das obras de Evola no mundo islâmico provavelmente data do início dos anos 90, quando o filósofo nacionalista muçulmano Geidar Dzemal, fundador do Partido para o Renascimento Islâmico, forneceu ao primeiro canal da televisão russa uma transmissão devotada a Julius Evola.
Em 1993, Revolta Contra o Mundo Moderno foi evocado, em uma entrevista publicada na edição n.77 da revista "Éléments", por outro intelectual islâmico: o argelino Rachid Benaissa, discípulo e herdeiro daquele mentor da "Renascença Islâmica" que foi Malek Bennabi.
Em 1994, graças a uma iniciativa de um professor de teologia islâmica na Universidade de Marmara, Insan, uma editora de Istambul,, publicou um livro chamado Modern Dünyaya Baçkaldïrï, nomeadamente a tradução turca de Revolta Contra o Mundo Moderno. A apresentação editorial fez referência expressa a René Guénon, de quem duas obras apareceram no mesmo ano em turco, Crise do Mundo Moderno (Modern Dünyanin Bunalimi, Agac, Istambul) e O Reino da Quantidade e o Sinal dos Tempos (Niceligin egemenligi ve çagin alâmetleri, Iz, Istambul).
Se o nome de Julius Evola não é desconhecido no mundo islâmico, qual era a amplitude de conhecimento do Islã que possuía Evola?
A retrato do Islã em Revolta Contra o Mundo Moderno ocupa não mais que algumas páginas, mas apresenta com profundidade suficiente os aspectos do Islã que, desde a perspectiva evoliana, o permitem ser caracterizada como "uma tradição em um nível superior tanto em relação ao Judaísmo como em relação às crenças religiosas que conquistaram o Ocidente", (RMM 245) isto é, o Cristianismo.
Em primeiro lugar, Evola aponta que o simbolismo islâmico indica claramente uma conexão direta dessa tradição com a própria Tradição Primordial, de forma que o Islã é independente tanto do Judaísmo como do Cristianismo, religiões cujos temas característicos ele rejeita (pecado original, redenção, mediação sacerdotal, etc). Novamente em Revolta Contra o Mundo Moderno pode-se ler:
"Como no caso do Judaísmo sacerdotal, o centro no Islã também consistia da Lei e da Tradição, considerada como força formativa, à qual as estires árabes originais forneciam um material humano mais puro e nobre que foi moldado por um espírito guerreiro. A lei islâmica (sharia) é uma lei divina; sua fundação, o Corão, é tido como a própria palavra de Deus (kalam Allah) bem como uma obra não-humana e um "livro não-criado" que existe no céu ab aeterno. Ainda que o Islã se considere a "religião de Abraão", até a ponto de atribuir a ele a fundação da Kaaba (onde encontramos novamente o tema da "pedra", ou o símbolo do "centro"), é não obstante verdadeiro que (a) ele reivindicava independência tanto do Judaísmo como do Cristianismo; (b) a Kaaba, com seu simbolismo do centro, é uma locação pré-islâmica e possui até origens ainda mais antigas que não podem ser datadas com precisão; (c) na tradição islâmica esotérica, o principal ponto de referência é al-Khadir, uma figura popular concebida como superior e predatando os profetas bíblicos (Corão 18:59-81). O Islã rejeita um tema encontrado no Judaísmo e que no Cristianismo se tornou o dogma da base do mistério da encarnação do Logos; ele retém, sensivelmente atenuado, o mito da queda de Adão sem trabalhar o tema do 'pecado original'. Nessa doutrina o Islã via uma 'ilusão diabólica' (talbis Iblis) ou o tema invertido da queda de Satã (Iblis ou Shaitan), que o Corão (18:48) atribuiu a sua recusa, junto a todos os anjos, de se curvar perante Adão. O Islã também não apenas rejeitou a idéia de um Redentor ou Salvador, que é tão central no Cristianismo, mas também a mediação de uma casta sacerdotal" (RMM 244).
A pureza absoluta da doutrina da Unidade, isenta de qualquer traço de antropomorfismo e politeísmo, integração de cada domínio da existência em uma ordem ritual, ascese de ação pela jihad, habilidade de modelar uma "raça do espírito": essas são, respectivamente, os aspectos no Islã que retém a atenção de Evola. Ele escreve:
"Ao conceber do Divino em termos de um monoteísmo absoluto e puro, sem um 'Filho', um 'Pai', ou uma 'Mãe de Deus', cada pessoa como muçulmano parece responder diretamente a Deus e ser santificado pela Lei, que permeia e organiza a vida de um modo radicalmente unitário em todas as suas ramificações jurídicas, religiosas e sociais. No Islã primitivo a única forma de ascetismo era a ação, isto é, a jihad, ou "guerra santa"; esse tipo de guerra, pelo menos teoricamente, jamais devia ser interrompida até a consolidação plena da Lei divina ter sido atingida. É precisamente pela guerra santa, e não pela pregação ou pela iniciativa missionária, que o Islã veio a desfrutar de uma expansão súbita e prodigiosa, originando o império dos Califas bem como forjando uma unidade típica de uma raça do espírito, nomeadamente, a Umma ou 'nação islâmica'" (RMM 244).
Finalmente, o Islã, Evola aponta, é uma forma tradicional completa, no sentido de que está imbuído de um esoterismo operacional e vivo que pode fornecer àqueles que possuem as qualificações necessárias os meios de atingir uma realização espiritual que vai além do objetivo exotérico de "salvação":
"Finalmente, o Islã apresenta uma plenitude tradicional, já que a sharia e a sunna, isto é, a lei exotérica e a tradição, possuem seu complemento não em um misticismo vago, mas em organizações iniciáticas completas (turuq) que são caracterizadas por um ensino esotérico (tawil) e pela doutrina metafísica da Identidade Suprema (tawhid). Nessas organizações, e em geral no Shia, as noções recorrentes do masum, da prerrogativa dupla do isma (infalibilidade doutrinária), e da impossibilidade de ser manchado por qualquer pecado (que é a prerrogativa dos líderes, os Imãs visíveis e invisíveis e, do mujtahid) levam de volta à linha de uma raça inquebrantável moldada por uma tradição a um nível superior tanto que o Judaísmo e as crenças religiosas que conquistavam o Ocidente" (RMM 244-245).
De todos esses temas, aquele a que Julius Evola, dada sua "equação pessoal", é mais diretamente receptivo, é obviamente o tema da ação, ação sacralizada. O olhar de Evola está portanto fixado sobre a noção da jihad e sua dupla aplicação, em conformidade ao famoso hadith do Profeta ("Raja'nâ min al-jihad al-açghar ilâ-l jihad al akbar", isto é: "Você retornou de uma luta menor à grande luta;" ou, se preferirmos: "da menor à guerra santa maior". Esse hadith, que fornece o título para um capítulo em Revolta Contra o Mundo Moderno ("A Grande e Pequena Guerra Santa"), é adicionalmente comentado por Evola:
"Na tradição islâmica uma distinção é feita entre duas guerras santas, a 'grande guerra santa' (el-jihadul-akbar) e a 'pequena guerra santa' (el-jihadul-asghar). Essa distinção originou de um dito (hadith) do Profeta, que no caminho de volta de uma expedição militar disse: 'Você retornou de uma pequena guerra santa para uma grande guerra santa'. A grande guerra santa é de uma natureza espiritual interior; a outra é a guerra material travada externamente contra uma população inimiga com a intenção particular de pôr populações 'infiéis' sob o território da 'Lei de Deus' (dar al-Islam). A relação entre a 'grande' e a 'pequena guerra santa', porém, reflete a relação entre a alma e o corpo; de modo a compreender o ascetismo heróico ou 'caminho de ação', é necessário reconhecer a situação em que ambos caminhos se fundem, 'a pequena guerra santa' se tornando o meio pelo qual 'uma grande guerra santa é efetivada, e vice-versa: a 'pequena guerra santa', ou externa, se torna quase uma ação ritual que expressa e dá testemunho da realidade da primeira. Originalmente, o Islã ortodoxo concebe uma forma unitária de ascetismo: que está conectada à jihad ou 'guerra santa'.
A 'grande guerra santa' é a luta do homem contra os inimigos que ele leva dentro de si. Mais exatamente, é a luta do princípio superior do homem contra tudo que é meramente humano nele, contra sua natureza inferior e os impulsos caóticos e todo tipo de elos materiais " (RMM 118).
Em outro livro, Evola vê na idéia da jihad um "renascimento posterior de uma herança ariana primordial", de modo que "a tradição islâmica serve aqui como transmissora da tradição ário-iraniana" (Metafísica da Guerra 96).
A doutrina islâmica da pequena e grande "guerra santas" ocupa na obra de Evola uma posição privilegiada e adquire um valor paradigmático; ela exemplifica, de fato, e representa a concepção geral que o mundo da Tradição atribui à experiência guerreira, e, geralmente falando, à ação como caminho de realização. Os ensinamentos relativos à ação guerreira de vários milieus tradicionais são assim considerandos à luz de sua concorrência essencial com a doutrina da jihad e são expostas através de uma noção que é também de derivação islâmica: a noção de "caminho de Alá" (sabil Allah).
"No mundo do ascetismo guerreiro tradicional a 'pequena guerra santa', nomeadamente, a guerra externa, é indicada e até mesmo prescrita como o meio para travar essa 'grande guerra santa'; assim no Islã as expressões 'guerra santa' (jihad) e 'caminho de Alá' são muitas vezes usadas de forma intercambiável. Nessa ordem de idéias a ação exerce a função e tarefa rigorosas de um ritual sacrificial e purificador. As vicissitudes externas experimentadas durante uma campanha militar causam a emergência do 'inimigo' interno que montam uma dura resistência na forma dos instintos animalísticos de autopreservação, medo, inércia, compaixão ou outras paixões; aqueles que se engajam em batalhas devem superar esses sentimentos até o momento de entrar no campo de batalha se eles desejam vencer e derrotar o inimigo externo, o 'infiel'.
Obviamente a orientação espiritual e 'intenção reta' (niyya), isto é, aquela em direção a transcendência (os símbolos empregados para referir à transcendência são 'céu', 'paraíso', 'jardins de Alá' e daí em diante), são pressupostos como as fundações da jihad, sob pena da guerra perder seu caráter sagrado e se degenerar em algo selvagem em que o verdadeiro heroísmo é substituído por abandono descuidado e o que conta são os impulsos liberados da natureza animal" (RMM 118-119).
Evola menciona uma série de passagens corânicas (da tradução de Luigi Bonelli, que ele modifica ligeiramente) relacionadas às idéias de jihad e 'caminho de Alá' (RMM 119-120); 4:76; 47:4; 47:37; 9:38; 9:52; 2:216; 9:88-89; 47: 5-7. Ademais, ele cita duas máximas para ilustras essas idéias: "O paraíso jaz sob a sombra das espadas" e "O sangue dos heróis está mais próximo de Deus que a tinta dos filósofos e as orações dos fiéis" (RMM 125; cf. DF 308). Porém, se o primeiro dito é efetivamente um hadith, o segundo, extraído talvez de algum dúbio estudo orientalista, está há pólos de distância do hadith, citado por Suyuti em seu Al-kami' al-saghir, que diz literalmente: "No dia do Juízo Final, a tinta dos sábios será pesada com o sangue dos mártires, que deram suas vidas por Alá, e a tinta será mais pesada".
Antes de passar à exegese da doutrina da "guerra santa" nos milieus tradicionais não-islâmicos (especialmente Índia e Cristandade medieval), Evola faz uma analogia entre a morte do mujahid e a mors triumphalis da tradição romana (RMM 120); esse tema é referido novamente depois, quando a significância da "imortalização" atribuída à vitória do guerreiro por certas tradições européias é mensurada com "a idéia islâmica segundo a qual os guerreiros mortos em uma 'guerra santa' (jihad) nunca morreram realmente" (RMM 13). Um verso corânico é citado para ilustrar isso: "Não diga que aqueles que foram mortos na causa de Alá estão mortos; eles estão vivos, ainda que não os perceba" (Corão 2:153). O paralelo específico a isso também é encontrado em Platão (República, 468c), que Evola cita: "E aqueles que são mortos no campo, nós diremos que todos que caíram com honra são da raça de ouro, que quando morre, segundo Hesíodo, 'Habitam aqui na terra, espíritos puros, benéficos, Guardiães para proteger a nós mortais do perigo'" (RMM 137).
Em Revolta Contra o Mundo Moderno, outro tema permite a Evola fazer certas referências à doutrina islâmica: aquele do capítulo "A Lei, o Estado, o Império". Notando que "até e incluindo a civilização medieval, a rebelião contra a autoridade e lei imperial era considerada um crime tão sério quanto a heresia religiosa e os rebeldes eram considerados tais quais hereges, nomeadamente, como inimigos livres de suas próprias naturezas e como seres que contradizem a lei de seu próprio ser" (RMM 21-22), Evola menciona um conceito análogo no Islã e refere o leitor ao quarto surat corânico, v. III. Outro elo é então traçado entre, por um lado, o conceito romano-bizantino que opõe lei e pax do ecumenismo imperial ao naturalismo bárbaro, enquanto afirma a universalidade de seu direito, e, por outro lado, a doutrina islâmica, em que Evola nota poder ser encontrada "a distinção geográfica entre Dar al-Islam, ou 'Terra do Islã', governada por leis divinas, e Dar al-Harb, ou 'Terra da Guerra', cujos habitantes devem ser trazidos ao Dar al-Islam por meio da jihad ou 'guerra santa'." (RMM 27).
No mesmo capítulo, evocando a função imperial de Alexandre o Grande, conquistador dos povos de Gog e Magog, Evola faz referência à figura corânica de Dhul-Qarnain, geralmente identificado a Alexandre, e ao que é dito no décimo oitavo surat do Corão (RMM 26).
II
As analogias existentes entre certos aspectos do Islã e elementos correspondendo a outras formas tradicionais também são mencionadas em O Mistério do Graal; mas enquanto Revolta Contra o Mundo Moderno lida com paralelos puramente doutrinários - comparando ao Islã formas tradicionais que jamais entraram em contato com o mundo islamico - no ensaio sobre a "idéia guibelina imperial", as similaridades entre o Islã e os Templários são, pelo contrário, trazidas ao esquema histórico concreto das relações mantidas por representantes do esoterismo cristão e do esoterismo islâmico. Por exemplo, na seguinte passagem:
"Ademais, os templários foram acusados de manter ligações secretas com muçulmanos e de estarem mais próximos da fé islâmica do que da cristã. Essa última acusação é provavelmente melhor compreendida lembrando que o Islã também é caracterizado pela rejeição da adoração de Cristo. As 'ligações secretas' aludem a uma perspectiva que é menos sectária, mais universal, e assim mais esotérica que a do Cristianismo militante. As Cruzadas, em que os templários e em geral a cavalaria guibelina desempenhou um papel fundamental, em muitos sentidos criou uma ponte supratradicional entre Ocidente e Oriente. A cavalaria cruzada acabou confrontando um facsímile de si mesma, nomeadamente, guerreiros que obedeciam a uma ética correspondente, costumes cavalheirescos, ideais de uma 'guerra santa', e correntes iniciáticas" (MG 130-131).
Isso é seguido por uma descrição resumida do que Evola inadequadamente chama de "a ordem árabe dos ismaelitas", nomeadamente o movimento heterodoxo que estava proximamente ligado aos templários:
"Assim os templários eram o equivalente cristão da Ordem Árabe dos Ismaelitas, que similarmente se consideravam como os 'guardiães da Guerra Santa' (em sentido simbólico e esotérico), e que possuíam duas hierarquias, uma oficial e uma secreta. Tal ordem, que possuía caráter duplo, tanto guerreiro como religioso, quase se deparou com o mesmo destino que os templários, e por razões análogas: seu caráter iniciático e sua sustentação de um esoterismo que desprezava o significado literal das escrituras sagradas. No esoterismo ismaelita nós encontramos novamente o mesmo tema da saga imperial guibelina: o dogma islâmico da 'ressurreição' (kiyama) é aqui interpretado como a nova manifestação do Supremo Líder (Mahdi), que se tornou invisível durante o período da 'ausência' (ghayba). Isso ocorre porque o Mahdi em dado momento desapareceu, assim escapando à morte, deixando seus seguidores sob a obrigação de jurar lealdade e obediência a ele como se ele fosse o próprio Alá" (MG 131).
O esoterismo islâmico é definido por Evola como uma doutrina que vai tão longe quanto "reconhecer no homem a condição na qual o Absoluto se torna consciente de si mesmo, e que professa a doutrina da Suprema Identidade" (Oriente e Ocidente 212), de forma que o Islã constitui "um exemplo claro e eloquente de um sistema que, apesar de incluir um domínio estritamente teísta, reconhece uma verdade superior e caminho de realização, os elementos emotivos e devocionais, o amor e todo o resto perdendo aqui (...) toda significação 'moral', e todo valor intrínseco, adquirindo apenas o valor de uma técnica entre outras". (OO 212).
De fato, o esoterismo islâmico, nos ensinamentos de seus mestres e seu universo de noções e símbolos, oferece a Evola bases e referências de alguma importância. No que concerne símbolos e noções, é imperativo ressaltar a importância atribuída à função polar nas obras de Evola. Como ele explica, no "Oriente Próximo" (falar do mundo islâmico teria sido mais preciso), "a palavra qutb, 'pólo', não designa somente o soberano, mas, mais geralmente, aquele que dita a lei e é a cabeça da tradição de um dado período histórico". (Ricognizioni 50) (mais precisamente, o qutb, "o pólo", representa o ápice da hierarquia iniciática). Porém, todo um capítulo em Revolta Contra o Mundo Moderno, o terceiro da primeira seção, se apóia na idéia dessa função tradicional e faz uso precisamente dos termos "pólo" e "polar". O que é estranho é que o capítulo não contém qualquer referência explícita à tradição islâmica, ainda que os nomes de mestres esotéricos islâmicos como Ibn 'Arabi, Hallaj, Rumi, Hafez, Ibn Ata', Ibn Farid e Attar sejam mencionados em diversas obras de Evola.
A primeira menção de Ibn 'Arabi, al-shaykh al-akbar (doctor maximus), aparece em um glossário não assinado da Introdução à Magia, mas que certamente pertence a Evola: o caso de Ibn 'Arabi é citado para ilustrar "a inversão de papéis em relação ao estado em que, a dualidade tendo sido criada, a imagem divina encarnando o Eu superior se torna para o místico como um ser distinto" (IaM, I, 71). Para expandir essa idéia, Evola se refere à doutrina correspondente no sufismo:
"É interessante notar que no esoterismo islâmico há um termo específico para indicar essa mudança: shath, que significa literalmente 'troca de partes' e expressa o nível em que o místico absorve a imagem divina, a sente como si mesmo e sente a si mesmo, ao invés, como outra coisa, e fala como uma função daquela imagem. Há, na verdade, no Islã, certos 'sinais certos' pelos quais distinguir o shath objetivo de um mero sentimento ilusório em uma pessoa" (IaM, I, 71).
Em adição, ele relembra que "o fim de Al-Hallaj, que é considerado como um dos principais mestres do esoterismo islâmico (sufismo)", foi uma consequência de sua divulgação do segredo que está conectado à realização da mais alta condição. Evola retorna a esse ponto em outro lugar em sua obra, escrevendo:
"Em realidade, se certos iniciados com qualificação indubitável foram condenados e às vezes até mortos (o caso mais popular tendo sido o de al-Hallaj no Islã), isto é porque eles ignoraram aquela regra (a regra do segredo); não foi então uma questão de 'heresia', mas de razões práticas e pragmáticas. Segundo um dito: 'O sábio não deve perturbar com sua sabedoria aquele que não sabe'." (O Arco e a Clava, 108)
A outra breve alusão a Ibn 'Arabi encontrada em Introdução à Magia também é devida a Evola; no texto chamado Esoterismo e Misticismo Cristão e assinado com o pseudônimo "Ea", ele nota que o que está ausente no ascetismo cristão, apesar da disciplina do silêncio, é "a prática do grau mais interiorizado dessa disciplina, que não apenas consiste em pôr um fim à palavra falada, mas também ao pensamento (a noção de Ibn 'Arabi de 'não falar consigo mesmo')" (IaM, III, 281).
Em Metafísica do Sexo, tendo apontado que o Islã, "lei destinada à pessoa engajada no mundo, não para o asceta" (MS 262), não sustenta "a idéia da sexualidade como algo pecaminoso e obsceno" (MS 256), de modo que antes do concurso sexual com a mulher o homem pronuncia a seguinte fórmula "Bismillah al-Rahman al-Rahim" (Em Nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso), Evola observa que Ibn 'Arabi "chega ao ponto de falar de uma contemplação de Deus na mulher, de uma ritualização do orgasmo sexual em conformidade com valores metafísicos e teológicos" (MS 257).
A isso se seguem duas longas citações do Fusus al-Hikam (Os Selos da Sabedoria), da tradução de Titus Burckhardt, seguidas por essa conclusão:
"Nessa teologia sufística do amor, deve-se ver a amplificação e a elevação a uma consciência mais lúcida do mundo ritual com a qual o homem daquela civilização assumiu mais ou menos distintamente e experimentou relações conjugais em geral, partindo da santificação que a Lei Corânica confere ao ato sexual em uma estrutura não só monogâmica, como também poligâmica. Daí deriva o significado especial que a procriação pode adquirir, compreendida precisamente como a administração da prolongação da força criativa divina existente no homem" (MS 258).
Outra passagem do Fusus al-Hikam serve para ilustrar, na Metafísica do Sexo, a "chave para a técnica islâmica" (MS 349, que consiste em assumir "a dissolução através da mulher" como um símbolo da extinção no Divino. Relativo à mesma ordem de idéias é o significado da "Experiência entre os árabes" de Gallus (pseudônimo de Enrico Galli Angelini), um texto na Introdução à Magia do qual Evola cita alguns extratos relativos às "práticas orgiásticas para fins místicos (...) atestadas (...) no mundo árabe-persa" (MS 372).
No que Jalal ad-Din Rumi tinha para dizer sobre a dança ("Aquele que conhece o poder da dança da vida não teme a morte, porque ele sabe que o amor mata") (MS 128), Evola distingue outra "chave" das técnicas iniciáticas islâmicas, "a chave para as práticas de uma corrente ou escola do misticismo islâmico que tem sido transmitida por séculos e que considera Jalal ad-Din Rumi como seu mestre" (MS 370).
Na poesia sufi árabe-persa, conhecida de Evola através da Antologia della Mistica Arabo-Persiana de M.M. Moreno (Laterza, Bari 1951), ele discerne temas de uma certa relevância para sua "metafísica do sexo": por exemplo, ao aplicar simbolismo masculino à alma do iniciado, de forma que, como ele escreve, "a divindade (...) é considerada como uma mulher: ela não é a 'noiva celestial', mas a 'Amada' ou a "Amante'. Este é, por exemplo, o caso em Attar, Ibn Farid, Gelaleddin el-Rumi, etc" (MS 293).
Todo um glossário em Introdução à Magia, que pensamos poder ser atribuído a Evola, é dedicado a uma técnica caracteristicamente sufi, o dhikr. A correspondência entre essa técnica islâmica, o mantra hindu e a repetição de nomes sagrados praticada no hesicaísmo é particularmente enfatizada. (IaM, I, 396-397). O glossário também menciona Al-Ghazzali, o citando em outras páginas que são certamente atribuíveis a Evola (IaM, II, 135-136 e 239).
Ainda mais frutífero foi o encontro de Evola com o hermetismo islâmico: em verdade, de todos os autores muçulmanos, o mais citado por Evola é Geber, que é Jabir ibn Hayyan. No que concerne o papel desempenhado pelos hermetistas islâmicos, Evola escreve:
"Entre os séculos VII e XII era conhecido entre os árabes, que se tornaram os instrumentos do renascimento, no Ocidente medieval, do legado antigo da tradição sapiencial pré-cristã". (MG 150)
Em seu estudo especial sobre a tradição hermética, Evola usa um grande número de citações tomadas de textos islâmicos compilados por Barthelot e Manget. Como dissemos, ele privilegia Geber: mas se considerarmos a massa do corpus de Geber, isso não é surpreendente; Razi também é mencionado e um número de livros anônimos são citados, entre os quais o famoso Turba Philosophorum, traduzido ao italiano, no segundo volume de Introdução à Magia. Sobre o Turba Philosophorum, Evola diz que ele é "um dos textos hermético-alquímicos mais antigos do Ocidente" (TH 8); em realidade, em 1931, o ano em que a primeira edição de A Tradição Hermética foi publicada, J. Ruska indisputavelmente demonstrou a origem árabe do texto em questão.
III
Como é sabido, uma grande parte da obra de Evola se baseia em certos ensinos tradicionais que foram tornados acessíveis pelos escritos de René Guénon. Evola portanto deve muito as obras deste, de onde ele tirou conceitos e os adaptou a sua própria "equação pessoal". Ainda assim, dado o pertencimento de Guénon ao Islã e a derivação islâmica de certos ensinamentos fundamentais em sua obra, não seria irrelevante considerar o que Evola escreveu sobre a integração de Guénon na tradição islâmica:
"Guénon estava convicto de que certos depositários da Tradição ainda sobreviviam, apesar de tudo, no Oriente. Praticamente falando, ele teve contatos em primeira mão com o mundo islâmico onde cadeias iniciáticas (sufi e ismaelitas) continuavam a existir em paralelo à tradição exotérica (i.e. religiosa). Ele então se 'islamizou' completamente. Tendo se estabelecido no Egito, ele recebeu o nome de Sheikh Abdel Wahid Yasha e também a nacionalidade egípcia. Ele teve um segundo casamento com uma árabe" (R 210).
"No caso de Guénon, essa conexão (iniciática) deve ter sido realizada - como falamos antes - através de 'correntes' iniciáticas islâmicas. Mas para pessoas que não querem se transformar em muçulmanas e orientais, o caminho pessoal de Guénon tem pouco a oferecer" (R 212).
"O caso de Guénon" portanto fez Evola admitir que ainda existem, apesar de tudo, possibilidades de conexão iniciática; ademais, Evola afirma que, dadas as condições presentes, a escolha do Islã é praticamente necessária pra aqueles que não estão satisfeitos com a mera teoria.
"Nós podemos também mencionar um relatório islâmico relativo à corrente iniciática ismaelita, mais precisamente aquela do assim chamado 'Décimo Segundo Imã'. O Imã, o supremo chefe da Ordem, manifestação de um poder superior e o máximo iniciador, passou ao 'ocultamento'. Seu reaparecimento é aguardado, mas a época presente é a de sua 'ausência'.
Em nossa opinião, isso não significa que centros iniciáticos, estritamente falando, não mais existem. É certo que alguns existem, ainda que o Ocidente não seja concernente aqui e que se tenha que se voltar para o mundo islâmico e o Oriente" (O Arco e a Clava 227).
Nós tomamos essa oportunidade para notar que Evola provavelmente confundiu o movimento xiita duodecimano como um ramo particular do movimento ismaelita, e tal equívoco seria realmente excessivo, especialmente vindo de um "insider". Da mesma maneira, Evola parece pensar que o Imã é "o supremo chefe da Ordem" tanto na perspectiva ismaelita como na dos "duodecimanos"; e isso também seria uma imprecisão significativa, já que para o xiismo duodecimano, o Imã, como sucessor do Profeta, não é apenas o chefe supremo de uma Ordem, mas de toda uma comunidade.
Não obstante, isso é de importância aqui. O que importa, ao invés, é que segundo Evola uma conexão iniciática na época presente ainda é possível, desde que se volte para "o mundo islâmico e o Oriente".
No mesmo contexto, Evola levanta um problema relativo à relação existente entre centros iniciáticos e o curso da história:
"O curso da história é geralmente interpretado como uma involução e dissolução. Mas qual é a posição dos centros iniciáticos em relação às forças que operam naquela direção?" (AC 228).
Esse problema obviamente implica o Islã, como Evola escreve:
"Por exemplo, ainda que seja certo que organizações iniciáticas existem no mundo islâmico (as dos sufis), sua presença está longe de deter a 'evolução' de países árabes em uma direção antitradicional, progressista e modernista, com todas as suas consequências inevitáveis" (AC 228).
Essa questão foi levantada por Evola como parte de uma troca de idéias com Titus Burckhardt, um conhecido estudioso suíço que havia se associado com o esoterismo islâmico e residia em um país muçulmano, e que, com pleno conhecimento dos fatos, "havia ressaltado que possibilidades desse tipo (isto é, de uma conexão iniciática) sobreviviam em regiões não-européias" (O Caminho do Cinabro 2014). Nós não sabemos se, e como, o escritor suíço respondeu às objeções de Evola; em qualquer caso, pode-se dizer, em primeiro lugar, que os "países árabes", com os quais Evola parece identificar a "terra do Islã", em realidade constituem tão só 1/10 do mundo islâmico, e portanto que não seria preciso fazer sua "evolução" coincidir com o desenvolvimento da condição geral da ummah islâmica. Em segundo lugar - e, hoje, nós estamos em melhor posição para observar isso que no tempo de Evola - um "despertar islâmico" que tem se enraizado em alguns países árabes parece anunciar uma mudança radical de orientação. Finalmente, mesmo quando os "centros iniciáticos sufi" não se opõem, por sua ação, ao processo de involução geral, não é justificado afirmar que sua função é ilusória. De fato, a conexão a centros iniciáticos - dos quais procede cada transmissão regular de influências espirituais - constitui a única solução possível para quem considere reagir ao curso degenerativo do mundo moderno: um curso inevitável, já que ele está ligado às leis cíclicas precisas que governam a manifestação. É a função da conexão a um centro iniciático - e através dele ao centro supremo - garantir a continuidade da transmissão de influências espirituais para todo o período do ciclo humano atual, e assim permitir participação ao reino do Espírito até o final do ciclo. Desde tal perspectiva, o processo de involução aparece como ilusório: na verdade, ele concerne tão somente uma manifestação - que, dado seu caráter fundamentalmente contingente, representa absolutamente nada em relação ao Absoluto.
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sábado, 28 de maio de 2016
Julius Evola e o Tradicionalismo Russo
Por Alexandr Dugin
1) A Descoberta de Evola na Rússia
Os trabalhos de Julius Evola foram descobertos nos anos 60 pelo grupo de intelectuais esotéricos e anti-comunistas conhecidos como “os dissidentes da direita”. Eles compunham um pequeno círculo de pessoas que conscientemente se negava a participar da “vida cultural” da URSS e que, ao invés disso, tinham escolhido uma vida subterânea para si. A disparidade entre o cultura Soviética presente e a verdadeira realidade Soviética foi quase que totalmente o motivo que os levou a buscar os princípios fundamentais que poderiam explicar as origens daquela terrível idéia absolutista. Foi pela sua recusa do Comunismo que eles descobriram certos trabalhos de autores anti-modernos e tradicionalistas: acima de tudo, os livros de René Guénon e Julius Evola. Duas personalidades centrais animavam este grupo – o filósofo islâmico Geidar Djemal e o poeta não-conformista Eugene Golovine. Graças a eles, esses “dissidentes da direita” souberam os nomes e as idéias dos dois maiores tradicionalistas do século. Nos anos 70, uma das primeiras traduções de um trabalho de Evola (A Tradição Hermética) apareceu e foi distribuída dentro de um grupo, de acordo com os métodos do Samizdat[1]. No entanto, as traduções originais eram particularmente ruins em qualidade, porque elas foram feitas por amadores incompetentes muito distantes do grupo de verdadeiros intelectuais tradicionalistas.
Em 1981, uma tradução do Heidnische Imperialismus apareceu de maneira similar, como o único livro desse tipo disponível na Livraria Lenin em Moscow. Desta vez, a distribuição pelo Samizdat havia se tornado muito maior e a qualidade da tradução era muito melhor. Pouco a pouco eles distanciaram a verdadeira corrente tradicionalista do anti-comunismo, e a aproximaram do anti-modernismo, extendendo a sua negação da existência Soviética para a rejeição do mundo moderno, de maneira muito próxima à visão tradicionalista integral. Deve notar-se que as idéias tradicionalistas em questão, neste ponto particular, foram completamente removidas dos outros grupos de “dissidentes da direita”, que geralmente eram Cristãos ortodoxos, monarquistas e nacionalistas. Nesta época, Evola era mais popular entre aqueles interessados no espiritualismo em sentido amplo: praticantes de yoga, teosofistas [2], psiquistas [3], e daí em diante.
Durante a Perestroika, todos os tipos de dissidência anti-comunista se manifestaram e dos “dissidentes da direita” vieram as ideologias políticas e culturais da Direita atual: nacionalistas, nostálgicos, anti-liberais e anti-Ocidentais. Neste contexto e depois do desenvolvimento de ideias estritamente tradicionalistas, como resultado do Glasnost, os nomes de Guénon e Evola foram introduzidos no conjunto cultural russo. Os primeiros trabalhos de Evola apareceram nos anos 90, nas amplamente lidas partes da mídia conhecidamente “patriótica” ou “conservadora” e o assunto do tradicionalismo tornou-se tema de virulentas polêmicas e era um assunto importante para a Direita Russa como um todo. Periódicos como Elementy, Nach Sovremennik, Mily Anguel, Den, etc, começaram a publicar fragmentos dos escritos de Evola, ou artigos inspirados nele, ou em que seu nome e citações apareciam. Pouco a pouco o campo “conservador” veio a ter uma estrutura ideológica que produziu cisões entre os velhos nostálgicos e monarquistas da Direita e os mais abertos não conformistas e participantes da Direita menos ortodoxa (algumas vezes chamados de “novye pravye”, em russo, pode-se estar inclinado a fazer um paralelo com a “nouvelle droite”, mas foi um fenômeno bem diferente como um todo em relação com a Nova Direita européia). Pode-se categorizar este segundo grupo de patriotas como sendo parte da “Terceira Via” ou “Nacional-Revolucionários” e por aí em diante. O ponto de separação se dá exatamente sobre a aceitação ou rejeição da idéias de Evola, ou talvez mais apropriadamente, da idéias de Evola que não poderiam ser consideradas naturalmente “conservadoras” ou “reacionárias”, como a idéia de “Revolução Conservadora” e de “Revolta Contra o Mundo Moderno”.
Recentemente, o primeiro livro “Heidnische Imperialismus” teve 50.000 cópias publicadas. Até mesmo um programa de televisão voltado a Evola foi feito por uma canal popular. Então, pode-se ver que a descoberta de Evola pela Rússia foi feita em uma escala bastante ampla. Ele, que uma vez constitui o núcleo intelectual hiper-marginal da Rússia, antes da Perestroika, se tornou agora um fenômeno político e ideológico considerável. Mas é bem claro que Evola escreveu seus livros e formulou suas idéias num contexto temporal, cultural, histórico e étnico bem diferente. Isso, então, torna-se um problema: quais partes da filosofia de Evola são relevantes para a Rússia moderna e quais partes precisam ser trabalhadas, melhoradas ou mesmo rejeitadas, nessas circunstâncias? Esta pergunta necessita de uma rápida análise comparando e contrastando o tradicionalismo sagrado de Evola e o fenômeno político estritamente russo.
2) Contra o Ocidente Moderno
Desde o começo, se torna óbvio que a rejeição do mundo mercenário profano moderno, manifestado na Civilização Ocidental durante os últimos séculos, é comum tanto para Evola quanto para a totalidade da tradição intelectual da Eslavofilia Russa. Autores russos como Homyakov, Kirievsky, Aksakov, Leontiev e Danilevsky (entre os filósofos), assim como Dostoievsky, Gogol e Merejkovsky (entre os romancistas), criticaram o mundo Ocidental quase na mesma linguagem em que o fez Evola. Pode-se observar que todos eles possuiam o mesmo ódio pelo governo dos mafiosos, ou seja, o sistema democrático moderno, e que eles consideravam este sistema como degradação espiritual e profanação total. Similarmente, pode-se observar o mesmo diagnóstico para essas doenças do mundo moderno - a Franco-Maçonaria Profana, o judaismo depravado, o avanço da plebe, a deificação da “razão” – em Evola e na cultura “conservadora” russa. Obviamente, a tendência reacionária aqui é comum a ambos, então a crítica de Evola do Ocidente está totalmente de acordo com, e é aceitável para, a linha de pensamentos do conservadorismo russo.
Mais freqüentemente do que não [freqüentemente], pode-se ver que as críticas de Evola estão mais proximamente relacionadas com a mentalidade russa do que com uma mais amplamente européia – o mesmo tipo de generalização, a invocação freqüente de objetivos mitológicos e místicos, a noção distinta de que o mundo espiritual interno é organicamente separado das realidades imediatas modernas da perversão e do desvio. Em geral, a tradição conservadora russa de hodiernamente explicar eventos históricos num sentido mitológico, é de alguma forma, obrigatória. O apelo ao sobrenatural/irracional, aqui, está em perfeita congruência com o pensamento russo, que faz da explicação racional a exceção, e não a regra.
Pode-se notar a influência que os conservadores russos exerceram em Evola: nos seus trabalhos ele freqüentemente cita Dostoievsky, Merejkovsky (que ele conhecia pessoalmente) e muitos outros autores russos. Na outra mão, as frequëntes referências que ele faz à Malynsky e Leon de Poncins carregam parcialmente a tradição contra-revolucionária tão típica do Ser europeu. Pode-se citar também as referências que ele faz a Serge Nilus, o compilador do famoso “Protocolos dos Sábios de Sião”, que Evola reeditou na Itália.
Ao mesmo tempo, fica claro que Evola conhecia relativamente pouco sobre os meios conservadores russos, e, de fato, ele nem mesmo estava particularmente interessado neles, devido à sua idiossincrasia anti-cristã. A respeito da tradição Ortodoxa ele fez apenas alguns insignificantes comentários. Mesmo assim, a semelhança entre a sua posição sobre a crise do mundo moderno e o anti-modernismo dos autores russos é dada, amplamente, pela comunidade de reações orgânicas – Grandes Homens e “indivíduos”, no caso de Evola e heróis, no caso dos russos. Mas graças à espontaneidade das convergências anti-modernas, a gravidade dos desacordos de Evola, se tornam muito mais interessantes e muito mais críticos.
Em qualquer nível, as interpretações de Evola se encaixam perfeitamente no quadro da ideologia moderna da “novye pravye”, [isso ocorre] tão amplamente, que ela [novye pravye] agrega mais à sua visão da degradação da modernidade, aplicando, algumas vezes, as suas idéias [de Evola] mais globalmente, mais radicalmente e mais profundamente. Deste modo, as teorias de Evola são muito bem aceitas na Rússia moderna, onde o anti-Ocidentalismo é um fator político-ideológico extremamente potente.
3) Roma e a Terceira Roma
Um aspecto particular do pensamento de Evola é sentido pelos russos como de uma extrema e iminente importância: sua exaltação do Ideal Imperial. Roma representa o ponto principal da visão-de-mundo de Evola. Este poder sagrado vivente, que se manifestou por todo o Império era, para Evola, a própria essência da herança do Ocidente tradicional. Para Evola, as ruínas do Palácio de Nero e dos prédios romanos eram como um testamento direto de uma santidade orgânica e física, da qual a integridade e continuidade fora aniquilada pelo “castelo” kafkiano [4] do Vaticano Católico Guelfo.
A sua linha de pensamento Gibelina era clara: Imperium contra a Igreja, Roma contra o vaticano, a sacralidade iminente e orgânica contra as abstrações sentimentais e devocionais da fé, implicitamente dualista e Farisaica[5].
Mas uma linha de pensamento similar, aparentemente, é naturalmente sentida pelos russos, de quem o destino histórico sempre esteve profundamente ligado ao [Ideal] doImperium. Esta noção estava dogmaticamente enraizada na concepção Ortodoxa da filosofia staret[6] – “Moscow: A Terceira Roma” – Deve-se tomar nota que a “Primeira Roma” nesta interpretação cíclica Ortodoxa não era a Roma Cristã, mas a Roma Imperial, porque a “Segunda Roma” (ou “a Nova Roma”) era Constantinopla, a capital do Império Cristão. Então a mesma idéia de “Roma” mantida pelos Ortodoxos Russos, corresponde ao entendimento de sacralidade como a importância daquilo que é Sagrado e assim, a necessária e inseparável “sinfonía” entre autoridade espiritual e o reino temporal. Para a ortodoxia tradicional, a separação católica entre o Rei e o Papa é inimaginável e beira a blasfêmia, este conceito é até mesmo chamado de “heresia Latina”.
Mais uma vez, pode-se ver a perfeita convergência entre o dogma de Evola e o pensamento comum da mentalidade conservadora russa. E outra vez mais, a clara exaltação espiritual do Imperium nos livros de Evola, é de inestimável valor para os russos, pois isto é o que eles veem como a sua verdadeira identidade tradicional. O “imperialismo sinfônico”, ou melhor, “Imperialismo Gibelino”.
Existe um outro detalhe importante que merece ser mencionado aqui. É sabido que o “Autor do Terceiro Reich” Artur Müller van den Bruck, foi profundamente influenciado pelos escritos de Fiodor Dostoievsky, para quem o conceito de “Terceira Roma” era vitalmente significativo. Pode-se ver a mesma visão escatológica de van den Bruck do “Último Império”, nascido da convergência metafórica entre as idéias dos montanistas paracléticos[7] e as profecias de Joachim de Flora[8].
Van den Bruck, de quem as idéias eram algumas vezes citadas por Evola, adaptou o seu conceito de “Terceira Roma” da tradição Ortodoxa russa, e aplicou na Alemanha, onde ele foi ulteriormente trabalhado espiritual e socialmente pelos Nacional-Socialistas. Um fato interessante é que Erich Müller, o protegé de Nikisch[9], que fora grandemente inspirado por van den Bruck, comentou certa vez que o Primeiro Reich havia sido Católico[10], o Segundo Reich, Protestante[11], o Terceiro Reich deveria ser, exatamente, Ortodoxo!
Mas o próprio Evola participou amplamente nos debates intelectuais dos círculos revoluionários-conservadores alemães (ele era membro do “Herrenklub” de von Gleichen, que era a continuação do “Juniklub” fundado por van den Bruck), onde assuntos similares eram discutidos de uma maneira muito vívida. Agora é fácil ver outra maneira em que a mentalidade conservadora russa está ligada às teorias de Evola. Obviamente, não é possível dizer que as suas idéias, nesses problemas particulares, eram idênticas, mas ao mesmo tempo, existem conexões extraordinárias entre os dois que podem ajudar a explicar a assimilação das idéias de Evola para a mentalidade russa, que possui visões muito menos “extravagantes” do que aquelas pertencentes à Europa Conservadora Tradicional, que é majoritariamente Católica e Nacionalista nos dias de hoje, e raramente Imperialista.
* Texto publicado orginalmente em http://yrminsul.blogspot.com/2011/11/julius-evola-e-o-tradicionalismo-ru...
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[1] Samizdat foi um sistema na antiga URSS em que os livros oficialmente “impermissíveis” circulavam pelo país; estes eram cópias de cópias e não tinham boa qualidade, mas eles tendiam a chegar ao seu objetivo.
[2] Um escola religiosa/filosófica fundada pela ocultista russa Helena Blavatsky.
[3] Um conceito teosófico relacionado à todos os fenômenos mentais; C.G. Jung também o discutiu ocasinalmente.
[4] Para aqueles que não estão familiarizados com o trabalho de Kafka, esta é uma referência para o seu livro chamado “O Castelo”, que é sobre um homem que contrai o que deveria ser uma trabalho relativamente fácil num lugar distante, fazendo o levantamento das terras de um nobre local, mas que não consegue começar ou muito menos completar o seu trabalho, devido à burocracia imposta pelo seu próprio empregador (que ele nunca conhece pessoalmente, apenas por um representante ou representante de um representante) e que se frustra muito pelo fato de que o imenso e opressivo castelo do Conde pode ser visto de qualquer parte da cidade, mas ele não consegue nunca ir até lá para começar a sua tarefa. Obviamente, esta é uma acusação metafórica contra a totalidade do sistema judaico-cristão e como ele se relaciona com uma aparentemente impossível salvação. Da mesma forma, “Guelfo” se refere à uma coalisão alemã/italiana da Idade Média que apoiava a casa real de Guelfo contra a Dinastia Imperial Alemã dos Guibelinos, que era hostil ao Papa e ao Catolicismo.
[5] Referente aos Fariseus, hipocrisia, duplicidade, falsidade, fingimento.
[6] Os starets eram conselheiros espirituais, mas não sacerdotes: Rasputin poderia ser considerado como um.
[7] Os montanistas foram os precursors das seitas pentecostais modernas, i.e., aqueles que acreditam em revelações divinas pessoais e falar em linguas diferentes.
[8] de Flora era o Abade de Corazzo que completou um ensaio bastante presciente sobre a “era da razão”, por volta de 1200, onde ele escreveu “no novo dia, homens não dependerão da fé, porque tudo será fundamentado no conhecimento e na razão.”
[9] Ernst Nikisch, um nacionalista alemão da mesma época.
[10] o Sacro Império Romano-Germânico
[11] a Prússia sob o governo de Frederico, o Grande
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