Martin Heidegger leitor de Evola? Ao que tudo indica, sim. E é uma verdadeira surpresa, tendo em vista que o filósofo nunca citou o pensador tradicionalista em seus escritos conhecidos, públicos ou privados, editados ou inéditos. Quem deu essa notícia foi Thomas Vasek, redator principal da revista filosófica Hohe Luft, em um artigo intitulado “Um programa de subversão espiritual”, que aparece também no suplemento cultural do jornalFrankfurter Allgemeine de 30 de dezembro de 2015. Na Itália, foi mencionado no Reppublica, por Angelo Bolaffi.
Ao que tudo indica, Heidegger conhecia Evola e havia lido a “Revolta contra o mundo moderno”. Ou ao menos havia lido a consideração de Evola acima e feito a sua transcrição em seus escritos, modificando unicamente o termo “ser”. Seria interessante, neste sentido, poder averiguar ate que ponto Heidegger conhecia efetivamente a obra de Evola. Mas certamente ninguém o fará: segundo a consulta metodológica inquisitória, o pensamento desses gigantes vem a ser valido apenas em termos “processuais”, não filosóficos. Deste modo, não se averigua as razões de encontros, influencias, confrontos entre escritores, mas sim se interroga apenas o seu grau de consciência: “O réu Heidegger conhecia, então, a Evola? Em que grau se sentia ligado a ele? Podemos considerar o caso como uma forma de conspiração filosófica?”.
E, assim sendo, é óbvio que para um pensador indiscutivelmente passado por Evola e pelo Nacional Socialismo, ainda que estando no centro do pensamento universitário europeu, o fato de ter citado ou se baseado em um autor sempre renegado pela academia, visto como pecador ideológico, constitui em si um agravante e uma arma ao publico. Isso tudo traz mais ânimo para que se reabra o infinito dossiê Heidegger, para que se chegue à questão central: foi ou não o filósofo de Messkirch um bom democrático? Não, ele não o foi. Pelo contrario: Heidegger sempre foi um pensador antiliberal e antidemocrático, mesmo que se considerem outros pontos de vista.
Todavia, o fragmento encontrado revela-nos outro aspecto importante: Evola, que sempre foi marginalizado, visto como uma espécie de guru de círculos extremistas, havia sido na verdade um autor presente no debate cultural da grande cultura europeia do século passado. Em contrapartida, sabe-se que Evola nutria abertamente carinho por Heidegger, tendo dedicado um capitulo inteiro em seu “Cavalgando o tigre” ao existencialismo. Na verdade, esta não vem a ser a abordagem mais influente de Evola, mas o que nos interessa aqui e a influencia de Heidegger, sobretudo na critica da técnica à historia do Ocidente como esquecimento do ser.
Sabemos hoje que ao menos em uma ocasião, Heidegger se ocupou com grande interesse da obra evoliana, descoberta esta que pode ser aprofundada. Contudo, para fazê-lo, é preciso que o pensamento não esteja sendo policiado.
Adriano Scianca
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