domingo, 12 de junho de 2016

– Capítulo XII do livro O Caminho do Cinábrio (Julius Evola)

– Capítulo XII do livro O Caminho do Cinábrio (Julius Evola)

Neste círculo fechado e obscuro determinado pelo domínio da economia movem-se marxismo e capitalismo, apoiando-se um e outro numa concepção igualmente materialista da vida e dos seus valores. E eu repetia: «Não existe maior absurdo que a pretensão de representar hoje em dia uma Direita política sem sair deste círculo, sem o quebrar afirmando e instaurando o direito de pontos de referência mais elevados»”
Julius Evola* ————————————–———– Assim, qualquer equívoco a respeito do ideal político que eu indicava estava suficientemente afastado. Forneciam-se igualmente precisões suplementares a propósito das diferentes deformações e degradações do princípio de autoridade. Afastávamo-nos, assim, de qualquer “ditadura” – no sentido moderno – enquanto sistema baseado num poder informe simplesmente individual, de qualquer bonapartismo e também de qualquer nacionalismo; a nação “soberana” nasce de um processo de dissociação colectivista entre a “matéria” e a “forma”, sendo a “forma” o princípio supra-ordenado do Estado. Em simultâneo, negação da “estadolatria” em sentido estrito, isto é, como divinização e absolutiza- ção de um princípio simplesmente político e laico, privado de qualquer carisma superior, portanto inanimado. Por fim, fazia-se uma crítica contra os regimes de “partido único”, sendo esta expressão uma contradi- ção nos seus termos, dado que a palavra “partido” pertence por direito à ideologia democrática e antiorgânica. Dever-se-ia ao invés considerar o partido como uma espécie de Ordem, guardiã e suporte, espinha dorsal do verdadeiro Estado. Para o problema mais particular das relações entre política e economia, parti de considerações sobre o fenómeno moderno da “demonia da economia”. A essência deste fenó- meno é “a ideia segundo a qual na vida, individual ou colectiva, o factor económico é o factor verdadeiramente importante, real, decisivo, segundo o qual a concentração de qualquer valor e de qualquer interesse no plano económico e produtivo não é uma aberração sem precedentes no homem ocidental moderno, mas pelo contrário algo de normal, de natural, não uma eventual necessidade brutal mas sim algo que deve ser aceite, pretendido, exaltado”. Neste círculo fechado e obscuro determinado pelo domínio da economia movem-se marxismo e capitalismo, apoiando-se um e outro numa concepção igualmente materialista da vida e dos seus valores. E eu repetia: “Não existe maior absurdo que a pretensão de representar hoje em dia uma Direita política sem sair deste círculo, sem o quebrar afirmando e instaurando o direito de pontos de referência mais elevados… Não é o valor deste ou daquele sistema económico mas sim o valor da economia em geral que deve ser discutido. A verdadeira oposição não é a oposi- ção entre capitalismo e marxismo, é a oposição entre um sistema no qual a economia é soberana, seja qual for a forma de que se revista, e um sistema em que ela esteja subordinada a factores extra-económicos, no interior de uma ordem bastante mais vasta e completa, apta a conferir à vida humana um sentido profundo e a permitir o desenvolvimento das possibilidades mais elevadas dessa vida”. Era em função disto que se deveria compreender a soberania da política sobre a economia no verdadeiro Estado, de forma a impor freios e limites a processos que se tornaram todo-poderosos e destruidores. A contrapartida deveria ser um novo clima geral e, sobretudo, a “desproletarização” da visão da vida, “subsistindo a qualidade espiritualmente proletária onde não se sabe conceber um tipo humano mais elevado que o do ‘trabalhador’, onde se sonha com o ‘carácter ético do trabalho’, onde não se tem coragem para se opor com firmeza contra todos estes novos mitos contaminadores que correspondem a uma verdadeira religião de besta de carga”. Para colocar os pontos nos ‘i’ e acabar de vez com a famosa “questão social”, basta-me citar as seguintes palavras de Nietzsche: “Um dia os trabalhadores viverão como os burgueses – mas acima deles, distinguindo-se pela ausência de necessidades, haverá uma casta suprema: mais pobre, mais simples, mas será ela que deterá o poder”. Neste contexto, a única revolução legítima e concebí- vel (por exemplo contra um capitalismo degenerado e prevaricador) é a revolução de cima. Eu indicava num capítulo especial as formas nas quais a economia poderia ser enquadrada se as disposições éticas e viris predominassem de novo também neste domínio: nas “unidades de trabalho” (como eu lhes chamava) livres da intoxicação classista, com novas relações orgânicas, hierárquicas, personalizadas e solidaristas entre
os diferentes elementos de cada empresa, num regresso ao antigo ethos corporativo. Aludia-se igualmente às estruturas políticoinstitucionais correspondentes. Aqui é apenas necessário dar uma ideia rápida sobre os outros problemas tratados na obra. Num capítulo eu estigmatizava a irresponsabilidade de dar livre curso ao cancro representado pelo aumento populacional, factor claramente essencial da desordem contemporânea; retomava as mesmas ideias que, na época fascista, levaram à apreensão de um número da minha revista La Torre. Noutro capítulo denunciava a ideologia e a mentalidade “historicistas”, indicando as premissas gerais de todo o conjunto das ideias contrarevolucionárias e tradicionais que eram defendidas nesse livro. Também me pareceu igualmente oportuno fazer uma precisão a propósito do “militarismo”, de modo a evitar a confusão, típica da mentalidade burguesa e democrática, entre o desvio que merece esse termo “militarismo” e um certo ethos que se pode expressar numa direcção guerreira e que pode também servir de base a um tipo particular, viril, da sociedade, nos termos de uma atitude geral perante a existência. Num outro capítulo voltava à oposição a tudo o que é sociedade, civilização e costumes burgueses e colocava a exigência de que a nossa negação de tudo isso não fosse menos branda que a do marxismo e do comunismo, embora obviamente de sinal oposto. Tive ocasião de retomar e desenvolver esta ordem de ideias segundo uma perspectiva diferente no meu livro seguinte, Cavalgar o Tigre. Formulava novamente, de forma adequada e em outros capítulos, as ideias já expostas no período precedente. Assim, voltava à guerra oculta e às armas que ela utiliza, isto é, as tácticas das forças da subversão mundial que agem secreta e indirectamente sobre o curso dos eventos e da história; a segunda parte desse capítulo reproduzia o texto de uma alocução que fizera em Berlim, à porta fechada, perante os chefes dos serviços de segurança, e que fora apesar disso posteriormente publicada na revista francesa Contrerévolution de Léon de Poncins. Assim, uma visão mais conforme à verdade devia substituir as manias do historicismo e do progressismo que, frequentemente, mais não são que cortinas de fumo por trás das quais prossegue o labor de destrui- ção. Retomava em outro capítulo aquilo que já dissera na minha obra sobre a doutrina da raça (livro esgotado e actualmente impossível de encontrar) a respeito da latinidade, da alma mediterrânica e da romanidade, bem como sobre os elementos de estilo e as formas de comportamento que deveriam ser colocados em primeiro plano numa eventual obra rectificadora do tipo italiano. Neste domínio, as afinidades electivas e as vocações íntimas tinham uma parte essencial, sendo o complemento desta ordem de ideias a explicação dada no capítulo sobre a “escolha das tradições”. Denunciava nesse capítulo as deformações operadas por uma historiografia de origem maçónico-liberal, destinada a apresentar como tradição nacional tudo aquilo que, na história italiana, teve um carácter subversivo e antitradicional, a começar pela revolta das comunas (como se ela tivesse sido uma luta contra o “estrangeiro” e não o levantamento da democracia nascente contra o direito da casta feudal e contra a autoridade imperial, e como se os italianos, os gibeliBoletim Evoliano 4 www.boletimevoliano.pt.vu nos, não se tivessem agrupado eles mesmos contra as comunas), para chegar aos aspectos problemáticos do Renascimento e terminando com o Risorgimento, considerado em tudo aquilo em que representa um episódio da revolução europeia do Terceiro Estado, solidária das ideias da Revolução Francesa e da maçonaria, indicando por fim os mitos que provocaram, durante a primeira guerra mundial, a ruptura da Tripla Aliança e a intervenção da Itália ao lado das democracias ocidentais. Se, infelizmente, uma tal “tradição” teve um papel importante na história da Itália depois de o povo italiano ter deixado de ser o representante da ideia e do símbolo romanos, é sempre possível indicar pontos de referência para uma escolha das tradições precisamente oposta, em que uma outra “raça interior” devia ser decisiva. Enfim, não me pareceu inútil considerar mais uma vez as contrafacções do gibelinismo e a atitude a adoptar face ao catolicismo, com uma atenção particular aos problemas e à orienta- ção dos meios em função dos quais escrevi a obra. Uma oposição legítima ao catolicismo não pode em nenhum caso apoiar-se sobre o direito soberano de um Estado laico e agnóstico, ou seja, do simples poder temporal. O verdadeiro gibelinismo pressupõe o Estado verdadeiro, tendo o Estado uma legitimidade espiritual. No entanto, fora do plano político em sentido estrito, subsiste uma oposição entre os valores próprios a um tal Estado e certos aspectos essenciais da moral e da religião cristãs. Reconheci que, sobretudo nos países latinos, certas forças tradicionais e contrarevolucionárias se apoiaram no catolicismo e que houve uma época em que o catolicismo dera ao puro princípio da soberania e da autoridade a sua consagração (a aliança contrarevolucionária e “reaccionária” do trono e do altar). Mas tudo isso desapareceu. Do ponto de vista doutrinal, hoje mais do que nunca é evidente a incapacidade do catolicismo oficial em se integrar “tradicionalmente”,
no plano de uma verdadeira universalidade e de uma verdadeira transcendência, no sentido indicado por exemplo por Guénon, de tal forma que apenas pude repetir aquilo que já tinha escrito num outro livro: “Aquele que é tradicional sendo cató- lico, no sentido corrente e ortodoxo do termo, apenas é tradicional pela metade”. Do ponto de vista políticosocial é claramente visível, no catolicismo actual, uma “escolha das tradições” conforme à época: daí a predominância no seu seio de reivindicações democráticas e sociais e a rejeição daquilo a que alguns dos seus representantes chamaram, num calão verdadeiramente maçónico, “os resíduos ultrapassados da Idade Média”. Escrevia: “Se hoje o catolicismo, sentindo aproximaremse tempos decisivos, tivesse a força de se afastar verdadeiramente do plano contingente e de seguir uma linha de alta ascese; se o catolicismo, precisamente sobre esta base e como num reatar do espírito da melhor Idade Média das Cruzadas, fizesse da alma um bloco armado de forças, compacto e inexorável, virado contra as correntes do caos, da submissão, da subversão e do materialismo político do mundo actual, neste caso, certamente, não poderiam existir dúvidas sobre a escolha a fazer. Mas, infelizmente, as coisas não estão neste ponto”. De tal forma que um dos principais problemas a resolver com vista a uma eventual obra de reconstrução mantinha-se colocado. Isto também valia, em certa medida, para aquilo que estava exposto no último capítulo do livro, intitulado “Europa unida: forma e condições”. Reafirmei também aqui a ideia orgânica e hierárquica e rejeitei, em vista de uma eventual unificação da Europa, qualquer solução de natureza mais ou menos democrática, simplesmente económica e associativa. A premissa essencial devia ser a integração orgânica dos diferentes Estados europeus; a unidade europeia deveria realizar-se “no topo”, sendo a outra condição suplementar, evidente, a superação do nacionalismo e do seu hybris (a “suficiência das nações” descrita por Vico), superação de resto implícita na própria forma do “Estado verdadeiro”. Uma autoridade supra-ordenada, reconhecida como tal, deveria servir de cimento e de centro de gravidade a um sistema que se apresentasse como um “organismo feito de organismos”. É apenas em função desta autoridade e do seu “direito eminente” derivado da sua natureza espiritual que se deveria conceber e admitir a limitação das soberanias nacionais particulares. Mas um duplo problema apresentava-se: antes de mais, o do fundamento dessa autoridade; e, em segundo lugar, o da medida segundo a qual se é capaz, não de a reconhecer de forma natural, mas mesmo de a conceber, dado o clima espiritual dos nossos dias e a secular ausência, na Europa, de uma tradição unitária viva, não “profana” ou simplesmente “cultural”. De qualquer forma, se qualquer tentativa nesta direcção poderia ainda ser feita, eu dizia que, na minha opinião, nada se poderia esperar se não se desse a associação de dois grupos de elementos, representando de certa forma, no seio das diferentes nações europeias, os homens ainda “de pé entre as ruínas”. De um lado, tratar-se-ia de homens pertencendo a velhas famílias europeias, que valeriam não apenas pelo seu nome, mas igualmente por aquilo que eles são, pela sua personalidade: isto na perspectiva de um despertar eventual de uma herança não totalmente perdida mas que se tornara apenas latente no seu sangue e na sua “raça”. O segundo grupo corresponderia àqueles que passaram através de todas as destruições dos tempos mais recentes – da guerra e do pósguerra – sem terem ficado quebrados e que, após terem reconhecido como ilusões e mentiras as ideologias e os mitos de ontem e de hoje, são capazes de um realismo superior e de uma acção pura; entre estes dois grupos dever-se-ia estabelecer uma solidariedade essencial, para além das fronteiras e da oposição das frentes precedentes. No caso em que os dois grupos se unissem e conseguissem suplantar progressivamente as “classes políticas” actuais, esgotadas e inconsistentes, nas suas nações respectivas, então poder-se-ia desenvolver a perspectiva de uma Europa unida num sentido tradicional orgânico, reunida não por simples factores materiais, enquanto tais sempre contingentes, mas por uma ideia e um poder superiores: capaz, por conseguinte, de afrontar verdadeiramente o perigo representado pelo bloco oriental. Os Homens e as Ruínas saiu com uma apresentação do príncipe J. Valerio Borghese, muito conhecido como representante dos combatentes da última guerra por ter estado à frente de algumas forças da Marinha italiana que, entre outras coisas, afundaram no porto de Alexandria, numa empresa bastante audaciosa, dois couraçados e outros navios ingleses, e por ter combatido em seguida até ao último momento como comandante do corpo chamado “Decima Mas”. Esta associação do seu e do meu nome devia ter um carácter simbólico: éramos ambos homens que tinham seguido livremente uma linha ideal, evitando o plano da baixa política, podendo um representar o aspecto combatente e o outro o teórico de uma ideia precisa de Direita. Eu pensava que este tandém poderia cristalizar na Itália forças para esta nova frente. De resto, estava prevista igualmente a publicação de uma nova revista com um título deliberadamente provocador, Il Reazionario. As coisas apresentavam-se da seguinte forma: o Movimento Social Italiano era, efectivamente, o principal agrupamento daqueles que, em geral, não tinham negado o passado e que rejeitavam
a democracia; mas ele compreendia tendências divergentes, mais que não fosse pelo equívoco republicano e “social” do “fascismo de Salò” (daí o termo “social” no próprio nome do partido). Tratava-se antes de mais de desenvolver no seio deste agrupamento uma corrente de Direita precisa e depois de unir forças de análoga orientação mas que, por diferentes motivos, se encontravam fora desse partido. Isto não nos termos de um partido político mas antes no sentido de quadros potenciais de uma ordem nova. Os partidos podiam servir, antes, como força de manobra no período de interregno da democracia parlamentar (é notoriamente sabido que era assim que o partido comunista se considerava) mas não deveriam ter verdadeira autonomia. A segunda tarefa era de preparar e de organizar – tal como o faz o comunismo – forças capazes de intervir em caso de urgência, pois era evidente que num caso desse género todas as maiorias rapinadas à custa de votos por sufrágio universal, com mulheres, burgueses, membros de associa- ções católicas e paroquiais, etc., derreteriam como neve ao sol e que só as forças organizadas e armadas do comunismo e do social-comunismo seriam eficazes e perigosas. Assim, de um lado a formação de uma elite de Direita, do outro, como contrapartida, os quadros potenciais para a acção; um partido, simplesmente para uma função táctica e contingente. Todo este projecto não teve seguimento. E o mesmo sucedeu com algumas aproximações feitas no campo monárquico. A experiência da revista Monarchia foi, por exemplo, instrutiva; esta revista fora criada por um velho amigo meu, Guido Cavalucci, antigo presidente da União Nacional Monárquica, o qual se propusera defender a causa monárquica fora das ligações e das intrigas dos partidos. Apenas saíram alguns números da revista, com a qual colaborei, dado que ele se encontrou perante o seguinte dilema: ou manter-se aferrada a uma linha fixada, sem desvios, e então não obter financiamentos; ou então obter financiamentos e passar então para o serviço de certos políticos. As Edições da Acha – fundadas por outro amigo, Tommaso Passa, que tinha começado por publicar, na página cultural, Os Homens e as Ruínas – tinham previsto um interessante programa de Direita. Mas a promessa de certos apoios não se cumpriu. Assim, além do meu livro, apenas publicaram a reedição da minha tradução de A Crise do Mundo Moderno de René Guénon. De uma maneira geral, as condi- ções necessárias para uma acção séria de renovação ideal e política não parecem existir em Itália. Infelizmente, encontra-se por todo o lado, como material humano, aquele que é representado pelo “político”, que é o mesmo quando combate o comunismo ou quando professa ideias “nacionais”. A pouco e pouco as intrigas parlamentares absorveram mesmo os melhores.
– Capítulo XII do livro O Caminho do Cinábrio

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