domingo, 12 de junho de 2016

Um Modelo Falacioso

Finanças versus Economia - O sistema financeiro (que é o mundo eminentemente virtual, irreal e parasitário), foi desenhado para funcionar de forma crescentemente contrária aos interesses da economia (que é o mundo real do trabalho, da produção e dos serviços concretos). Ao longo das últimas décadas, as Finanças e a Economia foram-se distanciado uma da outra, deixando de manter uma complementariedade sadia e eqiulibrada, e passando a serem crescentemente antagônicas. Isso reflete-se no sistema atual que baseia-se sobre o conceito de DÍVIDA, o que faz com que a Economia Real sempre fique aprisionada e subordinada aos interesses e vai-véns das Finanças Virtuais.

Sistema de Dívida - Em matéria de financiamento da economia com recursos genuínos, a doutrina liberal prevalescente deslocou crescentemente o Estado em sua função inalienável de utilizar a Moeda Nacional como instrumento de financiamento da economia, segundo os eixos de um Projeto Nacional centrado em promover o Bem Comum dentro de suas fronteiras e defender o Interesse Nacional ante forças adversárias. Daí entende-se que hoje tenha-se transformado em dogma das finanças, o conceito aberrante de considerar que os bancos centrais devem manter-se "independentes" do Estado, o que é uma maneira de lograr que os mesmos subordinem-se aos interesses da superestrutura bancária privada em lugar dos do povo e da economia em sua totalidade. Isso é assim na Argentina, e em outros países, porém no caso dos Estados Unidos resulta particularmente nefasto porque seu banco central - o Banco da Reserva Federal (FED) - é pura e simplesmente privado em 97% de sua estrutura acionária (ainda admitindo que trata-se de uma estrutura acionária sui generis). Ao lograr a superestrutura bancária privada controlar o banco central, podem então impor uma aguda inframonetarização da economia que faz com que nunca haja capital suficiente para satisfazer as necessidades da economia real. Dessa maneira, são os próprios bancos privados os que logram transformar-se em fonte primária de crédito para toda a economia, ativando assim o mui rentável negócio de emprestar dinheiro a juros, geralmente sob taxas usurárias. No plano geoeconômico, isso também serviu para gerar as enormes dívidas públicas em países como Argentina que também caíram na falácia de não saber utilizar sua Moeda Nacional, e de adotar torpemente todas as receitas neoliberais em matéria de banco central, dívida e outros mecanismos monetários, bancários e financeiros estruturados de forma contrária ao interesse nacional.

Sistema de Reserva Fracional - Este conceito vigente em quase todo o mundo, permite que os bancos privados em seu conjunto gerem do nada dinheiro "virtual" (ou seja, anotações registradas em conta-corrente, caderneta de poupança e linhas de crédito) em uma relação de 8, 10, 30 ou 50 vezes maior à quantidade de efetivo que tem em seus cofres. Em cima, cobram juros e exigem garantias reais e realizáveis por esse dinheiro "inventado". A relação entre a quantidade de dólares ou pesos em seus cofres, e a quantidade de crédito que podem gerar fica determinado pelo banco central (lembremos: controlados pelos próprios bancos), denomina-se encaixe bancário, e reflete uma previsão estatística da porção de poupadores que normalmente retiram seu dinheiro em efetivo. O que ocorre é que o conceito "normal" é um fator de psicologia coletiva, intimamente ligado à percepção que tem os poupadores do sistema financeiro em geral, e de cada banco em particular. Quando surgem "tempos anromais", ou seja, as consabidas e periódicas crises que "explodem" repentinamente como ocorreu na Argentina em 2001, ou hoje ocorre nos Estados Unidos, então TODOS os poupadores correm para retirar seu dinheiro. É então quando descobrem que o mesmo apenas alcança para pagar a uns poucos (e usualmente arbitrariamente beneficiados) poupadores: para o resto não sobre mais dinheiro, com o que deve-se recorrer ao seguro sobre os depósitos bancários (nos Estados Unidos cobre $100.000 por poupador, que são assegurados pela estatal Federal Deposit Insurance Corporation [...]). Tudo graças ao fraudulento sistema de reserva fracional bancária.

Banco de investimentos - Nos Estados Unidos, os assim-chamados "bancos comerciais" são aqueles que tem grandes carteiras de contas-corrente, cadernetas de poupança e parcelas fixas de pessoas e empresas (bancos como o CitiGroup, Bank of America, etc, e em nosso país o Standard Bank, BBVA e outros), conseguem ter um encaixe que permite-lhes em geral 6, 8 ou 10 dólares "virtuais" por cada dólar real que tem em seus cofres. Estes bancos ficam fortemente fiscalizados pelas autoridades monetárias do país. Não obstante entre os assim-chamados "bancos de investimentos" estadounidenses e globais (aqueles que fazem mega-empréstimos a corporações e Estados e tem grandes clientes), há muito menor fiscalização e os encaixes são muito, muito inferiores. Isso permite-lhes que para cada dólar real em seus cofres, possam emitir 26 dólares "virtuais" (Goldman Sachs), 30 dólares "virtuais" (Morgan Stanley), mais de 60 dólares "virtuais" (Merrill Lynch antes de seu colapso no último 15 de setembro), ou mais de 100 dólares "virtuais" nos casos dos falidos bancos Bear Stearns e Lehman Brothers.

Sistema de canalização e transferência - Outro conceito fundamental encontramo-no na maneira em que canalizam-se os lucros e transferem-se as perdas por todo o sistema, o que faz com que em tempos de bonança e de gigantescos depósitos (quando o sistema cresce, é estável, e permite gerarar muitíssimo dinheiro do nada), todos os lucros são privatizados em favor de acionistas, especuladores, diretores, gerentes, "investidores", etc. dentro das próprias instituições financeiras. Porém quando o sistema contrai-se, desestabiliza-se e entra em colapso, como ocorre hoje, então todas as perdas socializam-se, sendo absorvidas pelo Estado nacional através dos mais variados mecanismos de transferência para o povo (na forma de inflações, hiperinflações, colapsos bancários, bail-outs, aumentos de impostos, moratórias, nacionalizações, etc.)

Os 4 Eixos do Modelo Neoliberal - Em síntese, tudo isto conforma quatro eixos fundamentais que operam e modo coordenado, consistente e complementário cujos números não obstante, a médio e longo prazo, nuncam "fecham". Suas crises periódicas sistêmicas são inevitáveis e absolutamente previsíveis, seja na Argentina ou nos Estados Unidos:

1 - Astringência Monetária - gerada através do banco central "independente" que fica controlado pela superestrutura bancária privada, local e internacional;
2 - Banco privado baseado no sistema de reservas fracionais - que em seu conjunto gera dinheiro virtual do nada, cobrando juros - geralmente usurários - pelo mesmo, gerando enormes lucros para "investidores" e credores;
3 - Dívida - conceito fundamental que "move" as economias privada e pública e que substitui o muito mais saudável conceito do reinvestimento empresarial e da poupança individual. Necessita promover entre os povos um afã de consumismo desarvorado, e uma falta de sentido de previsão e poupança; 
4 - Privatização dos lucros/socialização das perdas - como mecanismo de canalização e transferência quando os recorrentes ciclos chegam a seu final inexorável e alguém tem que pagar pelos pratos quebrados.

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