sexta-feira, 10 de junho de 2016

NÓS, OS ANTI-MODERNOS. (Julius Evola)

 


Por diversas formas, hoje, torna-se cada vez mais clara a sensação de que uma ameaça obscura se projecta sobre toda a civilização do Ocidente. Na crise, que arremete não contra esta ou aquela forma especial, mas sim contra a própria estrutura de todo o mundo moderno, parece que se prenunciam os sintomas do fim de um mundo, do crepúsculo de uma cultura. Um Guénon, ao analisar o mal-estar e o desequilíbrio próprios da época, de facto mostra como as suas características são precisamente aquelas da Idade Obscura ou de Ferro, preconizadas pelas antigas tradições. Um Spengler indica como hoje está fatalmente em acção aquela lei inflexível, pela qual, tal como todo o organismo, também toda a civilização possui, depois do seu surgir e prosperar, o seu declinar e o seu petrificar numa grandeza bárbara privada de vida. Depois um Nietzsche, um Keyserling e um Kalergi acusam o imoralismo e o irrealismo da alma europeia, enquanto um Benda constata a trahison des clercs, a subserviência à paixão e ao ódio político das classes que teriam o legado de uma tradição espiritual. Na verdade, as antigas certezas cambaleiam por todos os lados; por toda a parte os princípios são incertos, as tradições estão perdidas, os espíritos estão divididos e forças obscuras, incontroláveis, irracionais, empurram e submetem os homens e as colectividades, jogando com as ideias, os interesses e as paixões que aqueles se iludem em perseguir. Aquela civilização, de que o moderno se orgulhava, e em nome da qual tinha acreditado no “mito” do “progresso” e tinha marchado à conquista do mundo, aquela civilização encontra-se hoje diante de uma espécie de redução ao absurdo, de uma inversão dos valores de que ela se arrogava. Lançando-se à conquista da matéria, esta não conseguiu o seu objectivo senão ao preço de materializar o espírito, de excluir toda a forma superior de vida, de amalgamar os indivíduos na tirania de organismos colectivos, que quase diríamos sub-humanos na sua falta de rosto, de racionalidade, de luz, na sua submissão a energias que de tempos a tempos, como que galvanizando com uma vida momentânea e assustadora os corpos mortos ou automáticos, os arremessa uns contra os outros. A tentativa cristã de dar ao Ocidente uma tradição religiosa, não pode ser considerada senão um fracasso. A nostalgia com a qual espíritos como um Maritain, um Guénon, um Berdjajew se voltam para o medievo feudal e católico, não é reveladora talvez da intransponível distância entre os tempos actuais, e aqueles, nos quais a Europa procurou verdadeiramente organizar-se sob os dois grandes símbolos da acção e da contemplação? Que importa que o cristianismo (sem se dar conta disso) tenha servido de veículo à transmissão de uma Sabedoria transcendente, “anterior a todo o tempo”, e que a Igreja em ritos, símbolos e dogmas, continue sua depositária, se faz já muito tempo que nenhuma consciência lhe corresponde? Se o cristianismo hoje não vale mais às pessoas do que como uma pequena fé e uma moral que todos professam e que todos traem, medíocre e burguesa no catolicismo, enfraquecida e estimulante de realizações práticas e de intransigências sociais no protestantismo? E não é apenas nesta perspectiva que quem fala de tradição e de retorno à tradição, na verdade sabe ainda menos do que aqueles que negam o que seja a tradição. Um Massis que levanta o símbolo de uma “defesa do Ocidente”, que soa o alarme contra a asiatização do mundo latino, na realidade não sabe nem aquilo que é o Oriente, nem aquilo que ao Ocidente poderia valer como princípio de reintegração; não sabe quanto daquilo que ele nega está naquilo que ele afirma, nem quanto daquilo que ele afirma está naquilo que ele nega. Façamos pois silêncio sobre tudo aquilo que de há algum tempo se proclama entre nós sobre tradições e tradicionalismo, ora sobre esta base ora sobre aquela, que exalta uma Roma vaticana, uma Roma maçónica, uma Roma mazziniana e giobertiana, levantando à direita e à esquerda estranhos tabus, lançando ataques no vazio, alimentando com palavras rebuscadas as confusões mais inverosímeis. Aqui como noutros lugares, a “confusão das línguas” é completa; a potência de esquemas, fórmulas e palavras que, como os entes criados pela magia, já não dependem dos seus criadores, é quase ilimitada. Já chega. Um amorfo desejo de fugir à estreiteza arimâ- nica do materialismo, já não encontrando aqueles sustentáculos que apenas no pressuposto de relações interiores e vivas eram dados pelas tradições sobreviventes, gerou na desequilibrada alma ocidental um desvio ainda mais perigoso: o do neo-espiritualismo. Dos vários renascimentos de um misticismo suspeito à importação de doutrinas exóticas o mais das vezes falsificadas; da novíssima superstição espírita ao interesse mórbido pelos problemas e as complicações do subconsciente e da psicanálise; do “intuitivismo” e do “surrealismo” às várias formas messiânicas e às mil seitas pseudo-religiosas e pseudo-ocultistas que pululam às margens do protestantismo: das ideologias humanitárias e universalistas àquelas de uma “religião da vida” e de um “super-homismo” que, estranhamente, quase sempre terminam em associações de mulheres e de sub-homens, de todas estas formas se extrai um significado comum. É o desfazer da alma europeia, é o seu esvaziar-se de si mesma, o seu evadir. Desviada por um insano empenho de libertação, esta subtrai-se ao real não por um supra-real, mas sim por um sub-real e por um pré-real no qual o sentido de individualidade se funde, e uma turva, extática coalescência com forças subhumanas abole a lei da acção pura e da visão clara. Tão pouco, quanto aquilo contra o que reage, um tal espiritualismo constitui um princípio: não é um sintoma de renascimento, mas sim – igual àquilo que já asiatizou o mundo greco-romano no período alexandrino, e ao qual assim estranhamente se assemelha – um sintoma de crepúsculo, uma exasperação do descartar e do desistir no universal tumulto. * * * Assim, tristes presságios ensombram o mundo ocidental: já não se trata de uma contingência dos últimos tempos, e sim da lógica conclusão dos próprios princípios sobre os quais esta civilização se desenvolveu. Na América – que é a mais temível entre as novíssimas barbáries –, não nos encontramos talvez perante o desembocar da direcção industrial iniciada pela “civilização” europeia? E no bolchevismo – que de certo modo constitui uma forma diversa do mesmo perigo – não se mostra talvez a afirmação sob máscara social materialista daquela mística da comunidade que, através da subversão cristã, varreu os valores individualistas, hierárquicos e imperialistas do mundo grecoromano? Tudo isto nos diz quão pouco é de se esperar acerca da eficácia de uma reacção. Mais uma geração – duas, no máximo – e toda a possibilidade sobrevivente será estrangulada, e nada mais segurará esta grande massa obscura que já se precipita pela encosta abaixo: a menos que uma convulsão brusca, uma crise que abale radicalmente os fundamentos da civilização moderna venha a restabelecer o equilíbrio, seja de que maneira for, o que aos olhos da maioria será como uma catástrofe. Possuindo esta convicção, que tarefa resta aos poucos que ainda resistem? Não uma acção directa, mas aquela acção mais desconcertante que pode exercer a muda e impassível presença de um “convidado de pedra”. É preciso quebrar pontes, e com a adesão absoluta a significados e a visões primordiais, aquelas que agiram ainda antes que as causas da presente civilização se estabelecessem, constituir um pólo, o qual, se não impedirá este mundo de desviados de ser o que é, impedi-lo-á porém de afirmar a inexistência de todo um outro horizonte, de se glorificar a si mesmo, de se instituir a si mesmo como uma religião, de pensar que aquilo que é, é aquilo que deve ser e que é bom que seja. A partir daqui, um ponto firme; a partir de tal ponto, novas relações, novas distâncias, novas conscientizações;

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